sexta-feira, 4 de maio de 2012

Se quer poesia na palavra dita,



vou dizer-lhe como Ela compunha toda a minha vida:
- seu corpo todo era ritmo lento, cujo nome fazia arder o peito. Perdi toda a saliva, umedeci o rosto inteiro, era sol que ardia no inverno, de fazer frio no corpo inteiro. 
[...]
Debrucei-me sobre o caderno envelhecido de onde os versos vinham a dar voltas no pensamento, escolhi para mim
as últimas sílabas compostas: a música que dali ouvi um dia se converteu em gesto e prosa
e perdi de novo toda a noção do tempo quando soprou aquele vento pronto pra mudar tudo de novo, começar tudo de novo, revirar tudo de novo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

revolta.


confesso que te ver ali no meio deles, e ver-me a mim como uma via adjacente mas impossibilitada, ali, perdidas, eu e tu no meio dos dragões, senti o tremor que me consome as mãos alvas. E senti uma saudade tão intensa que, vendo-te, não te materializavas perante esses olhos meus. É que não bastava-me te ver, era preciso ouvir, falar, atentar.
Como se não estivesses tu, também perdida e oscilante, a me olhar de longe, eu pouco te sentia e essa ausência me afugentava o sorriso verdadeiro, feito das manhãs azuis nesse estranho abril despedaçado...

terça-feira, 27 de março de 2012

"eu, eu mesma. e a cabeça cheia de cabelos"



(...) espera.

Entra nesse elevador fantasiando uma nova saída:
todos os dias sorri, apesar dessa loucura transparecer um pouco mais, dia após dia. 
Esse sorriso que leva no rosto é para todos, além de onde se permite ir com essa subida inevitável, para todos os não presentes, digo.
Os demais, uns poucos, ali amuados no canto de trás, deles, sim, o cheiro ocre do trabalho diário, ah sim, o cheiro preenchendo aquele elevador e o sorriso dela. Louca, como só ela, de imaginar-se atravessando subitamente para um mundo desconhecido todas as manhãs; presa, segura, acorrentada à sorte de não estar ali emparedada com os outros, dissonante, esmiuçadamente posta de lado por sua própria clareza em não fazer parte. O contraponto.
Ao passo que o sorriso deles, embora lá muito são e controlado, feito de coisas corriqueiras,  murcha da penumbra dos fatos e ressalta deliberadamente o dela, que me olha, no reflexo onde todos se vêem e a ignoram completamente.

sexta-feira, 16 de março de 2012

I didn' t try to fix you: confissão/desabafo.


Esses meus olhos agora ardem tanto. Tenho febre e um milhão de fragmentos espalhados pelo chão. No meu quarto, quem me dera, encontrarei melhor refúgio entres os escombros das últimas deixas.  

Começo a conflitar nesses vestígios da véspera, perdendo as palavras certas para aquela hora tão errada. Não encontro, não acho, por meio dessa dúvida, uma afirmação só que me valha. Fui mesmo levando essa guerra com a força que já não tinha, que por hora me desespera o fato de nada mais esperar: fico eu cá com os botões a fazer contas de um dia que não acaba dentro da cabeça, essa que lateja e pesa e dói como só a dor de vir ao mundo outra vez.


Procuro. Procuro de novo uma ponta de metal, ferro ou alma que me venha rasgar de uma vez, porque tenho a impressão de que usei as palavras erradas para me colar de novo. 
Desculpa, meu bem, mas estou doente de você, doente de nós e não encontro vez pra ser quem sou sem te ouvir todos os dias desabando uma casa.

quinta-feira, 15 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012


não que eu não goste dessa dualidade toda mas não me mande flores, garota. Construa um belo jardim pra que eu não vá muito longe de ti nessas horas turbulentas.

terça-feira, 6 de março de 2012

texto de final de tarde.




maior ainda que a minha espera é esse cansaço circundando meus joelhos, e não reluto.
Não importa que tua fala resista ao encontrar os olhos meus, ainda adianto-me com o verbo pronunciado te dizendo que tudo o que há em mim segue seu curso lêntido e adiante.
Prefiri caminhar porque a lentidão com que falas o amor me sobe dos pés à cabeça, num frêmito que não posso de todo suportar. E ainda ouço, distintamente da tua, essa voz aqui por dentro, por sobre meus ombros, no canto da boca, como a mais pura de todas as verdades inventadas e continuo:

Antes tremia do eco dos teus frêmitos, por hora estremeço na curva do caminho prolongado.