terça-feira, 18 de dezembro de 2012

La Couleur des mots


Se tens hoje este céu acinzentado te cobrindo como tenho os olhos meus, também sabes dize-los como digo eu : lembro-me desse rosto, dos finais de tarde refletidos nele, a luz que hoje nos falta nesse frio que sobressai.
Lembro-me agora perfeitamente de ter tomado estas mãos macias sob as minhas, de tê-las aquecido na margem do rio, de tê-las feito rosas de calor, de tê-las beijado e muito, e tantas vezes. Lembro-me do cheiro, é verdade, do cheiro que esse outono tinha e que impregnou a roupa que eu vestia.
Das palavras que não foram ditas também lembro, é delas que hoje falo, porque sua cor está esmorecendo e eu preciso pinta-las de novo, como uma verdade eterna.

Vou te dizer porque sempre te digo, mesmo não falando, te direi então que este meu mundo é todo teu, que também esta distância é tua, que tu estás acima destas coisas, destas pausas, destas indas e vindas. Digo-te de novo e sempre, som alto no vento, que é de ti que vem a poesia saindo dos meus lábios, que já eram tuas todas as minhas palavras antes de eu saber uni-las no papel, e que para mim elas sempre tiveram duas cores, como dois corpos de luz que destonam um ao outro quando insistem em ser dois, através de meios que hoje não te explico, mas que tu sabes bem e podes dize-lo à vontade por aí.
Escolhi hoje para ti esta manhã que é cinzenta, que representa a cor mais neutra entre nós nos tempos mais recentes, porque precisava te mostrar que ainda assim a estação é a mesma em mim, que ainda sinto as cores alternando entre esse cinza lá de fora e que tenho a mesma vontade por pinta-las nas paredes em ruas desconhecidas, que mesmo que insitas em passar por elas sem ver, já tens estas palavras guardadas como se eu as te tivesse entregue de antemão, porque agora te explicando mais uma vez, te digo que és toda a cor delas para mim.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

aquilo que liberta.

É quando me esforço pelo próximo, quando vou além do que consigo dar, sem entremeios nem satisfações, com esse desprendimento que antecede o ato de jamais receber nada em troca ou sequer o contentamento pleno por fazê-lo que dure do início ao fim da noite, que vejo quão impossível ainda é para um humano reconhecer a dificuldade além da que cada um sente.
Desmotiva-me esta realidade. Discursar é ainda para os desacordados, os histéricos e donos de sua própria verdade inventada. Quando mais me tomam por conhecidas as coisas, quanto mais prepotência percebo nos olhos dos que dizem que podem ajudar sem esperar a troca, mais o silêncio me veste divinamente e liberta, mas é uma liberdade dolorida de aceitar, se fazer entender, aceitar simplesmente.
Então, nesses momentos de desacordar, com uma insônia que parte e que vai além dessa dificuldade que me é humana, assumo que se tivesse mais hoje do que me foi dado (não dado), estaria muito mais desacordada do que agora, que esses meus olhos repletos de humana ignorância embora não ardessem tanto se eu pudesse partilhar do prazer de dormir, de me desfazer de um cansaço quase que existencial, me cegariam com privilégios embotados, e eu estaria sem essa consciência sombria, como que morta.