terça-feira, 17 de novembro de 2009

"...123. ...123. ...123."

O quarto. Surreal, espaçoso, amontoando-se por sobre seus corpos e os livros, o cheiro deles tomando seus pulmões. Os corpos, estes magros por sobre o lençol vermelho-sangue, desajeitados, ainda muito macios da maciez da juventude, dos odores leves e predispostos nas curvas translúcidas que imitam a travessia do rio. É impossível manter os olhos em algum ponto fixo, até estes se revoltam com a trepidez da fumaça do cigarro. Como querer tocar uma lembrança em vão, com as mãos perdidas nessa verdade eterna.

Ela se desprende, a lembrança se desprende, possui autonomia suficiente para isto, tal como o sorriso acontece ao acaso. Você se conteve no gesto, o tempo está se esvaindo por entre a boca muda num verbo feito de silêncio.

Sabe que não há pronúncia materializada, que os finais felizes são para aqueles que batalham por isto, então os dias pesam nas pálpebras desajeitadas e você dorme, silenciosa, com seus olhos azuis bem fechados, intocada por toda essa beleza que lhe circunda, feita de zeros e uns, de átomos precoces, de positivo e negativo, infinitos nas letras minúsculas, nas entrelinhas do corpo tal como o mantém na memória, e ri do modo como você se esforçou por conservar isto tirando fotografias com a sua retina luminosa.

Você anda através das mesmas ruas, os becos e semáforos familiares, e vai se esquecendo disto. Você deseja altercar, além-mar, um continente que talvez nem seja daqui.
E de repente você se vira, está de costas para o rio, os passos são os mesmos, quem te diria que fizeste o contrário?

Então sorri de novo, e sabe, tem a graça de o saber, que apesar de novembro, abril virá, em outros tempos, sem que você peça e mesmo que se chame por outro nome, perguntará e ouvirá a mesma pergunta em resposta “é, por onde você tem andado?” e saberá instintivamente que pelos mesmos caminhos de sempre sem contudo ser percebida pelo seu amor, tal como você se lembra bem dele agora, com a mesma sensação de tudo ser um começo e com a singularidade de ser sempre aquilo que lhe afoga sob manhãs azuis.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Doida"

Uma mulher atravessa a rua usando um robe vermelho, desses de banho. Invadiu o trânsito como se pudesse parar um desfile ao acaso, ficou estática ali no meio, sobre as faixas que seguem paralelas. É evidente que ela apresenta sinais de insanidade, leva seu jornal embaixo do braço e usa uns chinelos de pano muito surrados no mesmo tom acobreado de seus cabelos. Observo a cena, extasiada, demoro-me na fração de segundos em que o vento sopra e seu perfume chega até mim entre os estardalhaços das buzinas dos automóveis, que indignados, ressoam a algazarra matinal.

Muito tempo depois, quando já caiu em si, a mulher sacode a testa e caminha devagar, parecendo desvairada, até sumir no horizonte paciente. Ela jamais saberá que nesse instante em que surge de lugar nenhum e some no mesmo destino é fabulosa, porque ela não sabe, eu digo ao vento, porque ela não faz ideia de que é fabulosa eu digo baixinho, para que eu mesma ouça a sentença e faça dela uma verdade eterna.

Isso me faz pensar absurdamente demais sobre estes loucos, que estão presos em seus dormitórios, que usam aquele traje de louco e são vistos como tal. Ninguém jamais os vê, ninguém jamais os ouviu. Jamais. Os loucos da pandemia da idiotice, estes feito a gente, cheios de critérios e fábulas, espalhados sobre os poros da terra tal qual câncer terminal, parasitando enquanto se nomeiam dignos do que pensam e fazem, estes sim, todos loucos, se atirando uns sobre os outros por meio das palavras – e de quando em quando – atirando-se em corpos, em guerras quase surreais de tão atrozes, para ostentar a imagem já falida de poder que criaram em suas férteis mentalidades juvenis – aquela mesma porcaria de imagem que aprendemos assistindo à televisão, tomando coca-cola numa tarde de domingo, fumando a droga de um cigarro na companhia de amigos e bebendo a droga da cerveja – que é ruim pra burro até você se habituar e que no fim você nunca vai gostar de verdade (por que é que você acha que existem no cardápio cervejas com a pretensão escondida no título de menos amarga, afinal, senão para salientar que ninguém gosta do sabor de verdade?).
A mesma pandemia da humanidade, a doença do século, essa droga de certeza avara a respeito do ego, de se acharem o centro de tudo, essa coisa prepotente que vem embutida nos refrigerantes e nos energéticos enlatados, os quais eu e você bebemos sorridentes, com nossos sorrisos amarelos e máscaras de sextas-feiras à noite.
Quando eu me permitia ver coisas que não estas, ter sonhos que não os mostrados na televisão, eu era vista como uma esquizofrênica, até minha melhor amiga chegou a pensar que eu era mesmo estranha. Se eu me sentia mal com tudo isso? Eu queria morrer, o tempo todo, por não conseguir fazer parte do comum. Trancava-me em meu quarto e devorava livros, para supostamente aprender o comportamento que deveria ter diante dos outros, o de dissimular, acobertar, esquecer.

Hoje estou bem nas aulas de integração à imensa colônia, esse tratamento árduo que venho enfrentando desde que tenho consciência de meu lugarzinho fétido no mundo, esse mesmo lugar que você ocupa nele, sim, este espaço curto, temporário – devido à fatal proliferação de nossa raça dominadora.

Esta mulher de robe vermelho, eu já fui ela há muito tempo, era eu, sozinha em minhas épocas de sanidade. Hoje experimento entorpecentes e empurro a droga da cerveja para me integrar aos demais, sempre me arrependendo por dentro. Ou quando acendo a porcaria do cigarro pra lembrar como o fazia alguém. Não é segredo nenhum que já estou doente faz tempo, ainda tenho sonhos que não são daqui, mas estão diminuindo à medida que vou me drogando com a humanidade; e isso é o que faz de mim mais uma verdadeira doida enquanto o vento sopra o que resta de mim aos cantos da cidade.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Não Ouça.

http://www.ziddu.com/download/7150989/OAmante.mp3.html

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Benevolência"

Parece que foi inventada, a minha existência, mas não foi proposital, um mero acidente de percurso nos planos de deus. Talvez seja isso mesmo e verdadeiramente não me importa mais o modo como dispenso repentinamente os gestos que venho repetindo ao acumular dos anos, o inevitável teatro dos dias, a inutilidade do eu enquanto eu pequeno, ignorante, adormecendo dia após dia, noite após noite, um turbilhão de ações e pensamentos indefinidos sem real nome, sem a real presença e definição que se espera de alguém feito eu.

Qual a utilidade, o real objetivo, o significado aí intrínseco, quase imperceptível e soturno demais para ser à tempo percebido, de ser eu, quem eu sou, quem pareço ser mesmo não sendo, a casca humana com trejeito involuntário, cuidadosamente ensaiado, moldada a partir do cotidiano, fruto daqueles que me precederam, se ao final de tudo não sirvo nem para impedir a morte lenta das pessoas que amo, o seu distanciamento tão certo quanto o ar preenchendo os pulmões, esse egoísmo irrefutável de quere-los próximos, todos eles; essa minha mania idiota de mudar as coisas, se não consigo fazer com que também eles, egoístas e ignominiosos feitos eu, não levem suas vidas embora e me abandonem numa esquina qualquer com a minha mente a pregar-me peças ao final da noite? E quantas vidas é preciso viver para se obter a simples resposta à essa pergunta fundamental?

Para isto servimos afinal? Para sermos infinitamente egoístas uns com os outros, para dizer que nos amamos sabendo, furtivamente, que desconhecemos o amor tal como o idealizamos... o teatro das razões, a peça que nos pregamos a nós mesmos, as vaidades aí proscritas, a benevolência que acreditamos sustentar às vezes, dentro de nós mesmos, essa querida voz interior que nos faz pensar que está tudo bem, e a cortina cobrindo sempre, privando-nos de nós mesmos.

Estou cansada, faz tempo, e vivi somente duas dezenas de anos, o bastante para enxergar o vazio dentro de nós, o suficiente para pressenti-lo enquanto a boca sorri, fala, perde-se em outras bocas, a mão que entrelaça quem eu acredito amar nesse momento.

Quem aqui sabe tanto quanto lê, pode-se então fazer-se vivo enquanto me lê. Não é desgosto nenhum ser lida, nem ser esquecida, nem nada. É desgosto estar trancada em linhas retas, entretanto, sem nem o saber. Finjo que sei, só finjo, quem é que não o sabe de pronto? Quem é que vive sem o saber? Eu vou lhes dizer do que é o desgosto e de como ele veio até minha janela noite passada, como único acompanhante.

De quem poderia dizer senão desse sujeito que me mata noite após noite? É que muito cedo na vida eu o conheci, o desgosto. Não faz tempo, não faz quase nada, só minha vida debruçada sobre as nuvens lá em cima. O desgosto me cegou, estou cega, talvez você possa dizer o mesmo, talvez nunca se encontre aqui em meio às linhas. De fato nunca vi nada além do que minha imaginação me propõe ver, porque estou cega desde sempre. Sempre conjecturando acerca da vida, foi assim que vim ao mundo, não poderia ser diferente.

Cá estava eu com meus botões, pensava um pouco sobre a vida, o pouco que sei disso, só um pouco, quase nada. É que não vim aqui para saber, não sei. Assumi o papel de telespectadora faz tempo, foi o que me salvou.
Assisto-me aqui, enquanto imagino que sou capaz de assistir a quem me lê. Então conto-lhes as estórias, imparcial. Sou e não sou eu aqui, lhes dizendo estas coisas. Não ignore se estas mesmas acusações vierem até você futuramente. Ninguém é, está. Todo mundo se parece alguma coisa, sobretudo, a própria aparência de ser algo que não se é. Quantas vidas é preciso para entendê-lo é que não se sabe mesmo, mas para ser sincera comigo mesma apenas esta já me seria o suficiente.

Vive-se aí o tempo suficiente para sanar essa dúvida mortal, e há quem prefira viver a vida toda. Eu desde cedo sanei as dívidas, até hoje estou sanando. Para que é que não sei; de fato o saberei ao final disso, é a lógica intrínseca da vida, tem de ser.
Mas não volto atrás por causa das dúvidas. Como poderia? Se de fato estou cega de que me adiantaria voltar no tempo?

O meu desgosto é o que me mantém sóbria, é maior que o tamanho de átomos histéricos, é muito maior, talvez maior que eu mesma, e ainda assim ridiculamente pequeno considerando-me um grão de areia na alma do deserto, e depois no mar, e depois sobre a terra que é a nossa casa, e depois em meio a esta imensa galáxia a qual estamos todos sujeitos, inertes, ignorantes.

A condição da consciência sobre o tamanho diminuto do existir é única e infringível, deve-se a ela esse respeito mudo de não saber nada, de não parecer nada, de não intentar saber nada. Deve-se a ela, talvez, esse teatro todo de nossa condição humana, desses gestos vãos, quase medíocres, a respeito da vida, do amor, e depois da morte.

Não acredito que haja a verdadeira benevolência entre nós, se houvesse não seríamos tão pequenos. Benevolência é saber disto, é ser sincera consigo mesma, sabendo que a única bondade que podemos esperar uns dos outros é que não sejamos tão ruins quanto acreditamos ser e ponto final.
Mas a mente prega peças. Instintivamente sei que também estas palavras perderão o sentido, porque estou cega, reconheço-me cega, e depois é o que se espera no final, e do final nada sei. Tomara que seja benevolente com a minha ignorância, para que também toda essa indignação não vire teatro quando eu estiver já velha demais para sequer respirar...

domingo, 4 de outubro de 2009

tu, meu amor. Absolutamente nenhum outro alguém.

domingo, 13 de setembro de 2009

Escrito em julho

Não é um crime querer não pensar em você hoje. Não é um delito não me deixar submergir neste amor só por um instante. Seria totalmente perdoável se estas frases viessem até de você hoje. Ah, eu entenderia. Pois o corpo está cansado de toda essa doce tortura e reclama da ausência daquela luz serena que sai da sua tv. As cobranças logo nos deixarão loucas, partindo-nos em pedaços cada vez menores. O tempo pode nos martirizar, nos transformar em zeros, mas você vê o que está fazendo, você sabe do que se trata. Sabe que sempre estivemos lá onde tudo e nada acontecem num infinito que existe e persiste, intacto e mítico para aqueles que a ele jamais presenciaram. Sabe o que se passa naquele espaço vazio que nos ocupa em diversos momentos, aquele o qual eu e você olhamos para o nada, sozinhas. Você sabe.
Por isso é com você que vou submergir sempre tentando resistir.
Você deve saber que é meu muro das maravilhas e que eu não irei a lugar algum sem você. Talvez até chegue a ir, parcial, nunca completa, compelida pela força incontrolável de tudo que nos cerca, que nos empurra pra frente, sem fazer sentido aparente. Deve até imaginar, mesmo que faça de conta que não sabe de coisa alguma, que agora estou mais em você do que em mim e que existo em teus impulsos diários como uma pequena extensão do que você é.
Sabe o que está acontecendo, que nos comunicamos em silêncio e que isto é quase perfeito (seria perfeito se não soubéssemos).
Ah, você deve saber de todas estas coisas, sim. Não há outra explicação para tudo o que sucede ou há, mas nesse caso não quero que haja. E quero mesmo acreditar que quando você me diz que vai ser pra sempre tudo se torna sólido e eterno, porque tenho a certeza intacta de que sempre foi assim...

domingo, 23 de agosto de 2009

"O resto é silêncio."

Não tens o direito de ditar os meus passos, tão pouco de me supor. Não tens o direito de me escrever sobre o que não entendes, tão pouco de esperar que só porque foi escrito é verdade absoluta.
Não invente uma estória trágica que não nos cabe. Tens o direito de me olhar e dizer o que pensas com tom de dúvida, e muito mais de receber de mim a resposta mais sincera. Tens o direito de me pedir para não demorar, e mais ainda que eu te mostre o tempo que falta em dia, hora e minuto. Te sinta por dentro e aí está a única coisa que vais entender bem e que acontece igualmente em mim. Isso, essa proporção toda de sentimentos confusos e vontades delirantes, é a nossa estória, não cabe mais nada nela, meu amor por ti ocupa todo o espaço. É.

Tens o direito de me seguir e me encontrar lá embaixo. Vou esperar o tempo que acho que é seu (contando até 105).

terça-feira, 21 de julho de 2009

Anacinese

[
...]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

"Quebranto e Equidade"

Faz o maior barulho lá fora e som que chega até mim vai quebrando cadeias celulares sem muito esforço. Observo nesse instante a parte que em mim é uma constante, e ela desenha teu contorno em meu rosto. Seguro-me nela sentindo-me de repente muito pequena e recosto a cabeça no banco do ônibus.Vou mantendo o teu cheiro na lembrança até conseguir afastar todo o resto que não me cabe. Sustento ainda essa parcial solidão, esse vazio que me preenche quando já não estás. Então chega afebre invariável e torna iníqua toda a cena. Vejo-me desmanchar entre o gotejar da chuva no vidro, são fragmentos dos meus sonhos com você que se despreendem sofregamente da janela. Saio andando sem rumo, sento-me na companhia de estranhos. Eles dizem um amontoado de não-sei-o-quê e só isso. Tudo premeditado. No fundo eu sabia que ninguém diria qualquer palavra de conforto.
Por isso mesmo é que eu estava lá sem você.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

"Só para confundir você"

"Batatinha quando nasce
jacaré não tem pescoço
se você gosta mesmo de mim
Por que roubou meu patinete?

Por quê? "

sábado, 20 de junho de 2009

"Tá bom"

O que ninguém sabe é que até este aqui é meio reservado, meio introspectivo, quase que precisam marcar horário para terem o ar de sua graça - não que seja digno de nota ou importante ou coisa assim do tipo. É que... Deixemos pra lá.
É. De qualquer maneira é um todo em duas partes.
Sempre.
E eu adoro abrir a boca na ironia do vento
falar de tudo aquilo que nem eu mesma entendo.
(...)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"Nessa noite"

eu sei, e só eu sei, você é a mais distante de todas as coisas que me cercam. Estava há pouco, quase aqui, mas só deixa teu cheiro no ar. Como uma vaga lembrança a qual me agarro desesperadamente. Nessa noite, eu poderia te dizer quão desolador é imaginar as ruas da cidade sem você, porque tudo está bem próximo disto essa noite. Poderia te falar que sinto tua falta em cada beco, jardim e semáforo fechado e confessar que , andando através deles sozinha, nada disso tem sentido pra mim. E que não sou só eu, são também os lugares que anseiam por ti. Eu sinto que eles sentem. É, fazes falta. Nós bem sabemos e desconhecemos o tamanho exato da saudade que sentimos de ti.

Que saudades, meu amor. Que saudades até de quando não te conhecia. De quando passava noites como esta, em claro, imaginando as tênues linhas do teu rosto a me acalmar o pensamento. Perdia detalhes, eu sei, mas como era bom me deixar divagar na lembrança que me causavas ao passar. Confesso-te que imaginava teu timbre de voz, teu sorriso, tua cara bonita olhando lá de fora pra mim, dentro do ônibus. E de longe assim, és a coisa da qual mais sinto falta nesse instante.

Nessa noite, enquanto parecemos ser tão diferentes e contrapostas, feito o vermelho e o verde, o yin e o yang, eu ainda poderia jurar que iria pra qualquer lugar do mundo com você, poderia nadar contra a maré, dar socos no ar só para ver se alguém mais sente essa dor delirante de não te ter por perto. Fazer de conta que só porque você não me ligou não significa que acabou aqui, porque tudo é sempre um começo. É, poderia tatuar no meu corpo que tudo é sempre um começo com você. Poderia fechar os olhos e sair caminhando até a velha ponte de ferro, trôpega e completamente perdida mas determinada; ou poderia ir sentar-me na beira do rio e enche-lo com minhas garrafas de recados pra você.

Poderia fabricar redemoinhos lá embaixo, sobre a superfície da água, com a força do meu pensamento, só para me lembrar exatamente do teu sorriso naquela sexta-feira azul. Poderia engolir minha mágoa numa boa e beijar tuas costas nuas, me imaginar lá no teu desenho tatuado, percorrer a curvatura do teu corpo e beijar tua nuca, exatamente como na primeira vez. Poderia cortar meu cabelo bem curto, usar um óculos fundo de garrafa e construir um telescópio sozinha com a ajuda de um livro de física quântica, tendo na cara o sorriso mais nerd do mundo, só para me sentir mais em você do que em mim. Poderia ainda construir pequenos trilhos de trem em meu quarto e desenhar tua forma andando sobre eles comigo.

Poderia te falar de como é voar e te ensinaria a faze-lo com a maior facilidade do mundo ( dar-te-ia minha mão enquanto isso). Poderia jurar de pés juntos que consigo falar alemão - essa língua tão gutural e estranha de se falar - e poderia dizer que te amo, em japonês; ou fechar meus olhos no ar e deixar que assim fosse um pra sempre no pensamento. Poderia tudo que quisesse, meu amor, menos me sentir mais próxima de você do que você me permitiria essa noite.

sábado, 13 de junho de 2009

"Se te dissesse algo que pudesse fazer o dia cair do céu"

seria continue. Continue essa dança que teu corpo embala quando está comigo. Continue assim até durar pra sempre. E que medida de tempo em devaneios poderia ser tão precisa ao ponto de tornar um momento eterno através de um número domesticado pelo pensamento? Uma única unidade de medida chamada infinito que inunda de verdades os olhos aflitos e vai lá se espreguiçar sobre o lençol vermelho da cama que compartilhamos. Que poderia ser eterna ao ponto de nunca, nunca perecer nem entre números e gestos nem sussurros vorazes de corpos que se amam à meia luz de um aparelho televisor. E assim, sem ser preciso fazer muito sentido, o inverno pode ser pra sempre, ao seu modo, porque eu sempre gostei mais dele que do verão.

sábado, 6 de junho de 2009

"Flores"

Flores, amor.
Penso em todo tipo de flores.
Quero as macias para acariciar tua pele no rosto.
As mais cheirosas te levarei ao sentido do olfato.
As ainda frescas vão testar teu paladar quando vieres me beijar.
E quase esquivando-me dos teus lábios, levarei algumas delas roupas abaixo
te mostrando que o tato não é tão pleno apenas pelas palmas das mãos.
Ah, amor, flores...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Lá onde se enxerga sem ver"

Hoje, sobre a ponte de ferro, eu enxergo você.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

hoje não.

sábado, 16 de maio de 2009

"Para você. Não que você mereça."

Até onde precisas ir para perceber que não há chão pela frente? Por que insistir naquilo que é tão certo de ser nada? Sabemos ambas que o tanto era pouco e desmanchava-se-lhe aos olhos dos curiosos. E a troco de que cerras o punho e move tuas pernas? Caminhas sem rumo, como quem folheia a esmo as páginas de um velho livro. E ainda cuspes pra cima, encontrando-se na frente do espelho como a rainha da verdade.
Eu que de verdades não entendo nada, jogo para trás a cabeça e afogo os pensamentos em mãos espalmadas. Preservo a seriedade. Não bato pernas, não faço doce. E tampouco vou gritar como já era de se esperar que assim esperassem que eu reagiria.
Não.
Em vez disto, calo-me aqui. Aquieto toda essa angústia, amontoando um par de horas e enterrando velhas cartas na areia da praia – aquela a qual dividimos em muitas tardes na infância - esperando que a água salgada do mar faça o papel desmanchar definitivamente. Mentindo a mim mesma sempre. Tanto que começo a ficar boa nisso.

sábado, 9 de maio de 2009

"Quase sapatos"



Não fosse o quase
seria um par de sapatos pretos
muito bem engraixados
E o engraixate lá
Com seu sorriso amarelo
esperando as moedinhas
saltarem de bolsos quetinhos.
O menino desliza as mãos nas curvas da manequim
A moça de vermelho fez que sim
mas continuou lendo seu livro desinteressante
As unhas brilham polidamente
mais um esmalte carmesim
E nos cabelos, um laço setim
se desfazendo em si

Poc, poc, poc
Um outro sapato vem lá
com todo aquele estardalhaço
cor de abacate
E o frio rodopiando
Contente por haver unido dois amantes
engordurados de chocolate.
Só um fio ligado a outrem
que gera energia que vibra e aquece
Quando eu, cá escrevendo,
não vejo ninguém.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

"Reticências abandonadas em um papel carmesim"

"O que não sei dizer
é mais importante
do que o que
eu digo"

(Clarisse Lispector)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

"É. é para ti"

A retórica é verdadeira
mas cheira à hipocrisia
O vão desse teatro largo
interpreta um verso
quebrado de poesia
E é demorada a tua partida
faz-me de mim roer
as unhas, abatida
Tendo isso como único
vício irreparável
Tu estás para mim
assim como
Os pássaros estão para o mar
Nunca aceitável
flácido
incoerente
Irredutível, imastigável
Tanto que já não me desces
garganta abaixo
Por favor... não faças caso
amontoa-te nas costas
aquilo que te pareces ser
E vai.

sábado, 25 de abril de 2009

"Decisão"

Dia nublado: dia cinzento
fico de mãos bobas
esperando o leiteiro
o gato de uma orelha
lambe a pata cinza
e ardem brasas em chamas

lá fora, vão ficando amarelinhas
as folhas da trepadeira
uma fina fita de leite
embaça garrafas vazias na janela
nenhuma glória provém

duas gotas se equilibram
numa verde envergada
haste da roseira na casa ao lado
ó se arca de espinhos
o gato afia as garras
o mundo gira
hoje

hoje não irei
desiludir meus doze engalanados examinadores
nem cerrarei meu punho
na ironia do vento.

(Sylvia Plath)

Traduzido por Elson Fróes(in jornal POIESIS, nº 38, Brasil, l996, pag. 7)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"Shhh!"



o teu silêncio fez-me inventar uma vítima.

o espelho quebrado se rebelou
fez a garganta abrir-se tanto para engolir o ar
que pensei estar muito próxima
de ficar afastada.
e pensando, matei-me também.
fui deitar meu espírito nas nuvens
onde o fim se estendia, lêntido e sem sentido,
como um tapete vermelho complacente.
mas não é com intenção de ser-te agradável
que digo voltei.
não é para que suspires a minha volta nem para
que possas te lamentar de minha repentina partida.
voltei não sei porquê.
e antes que te veja quebrar o sigilo das respostas flutuantes
hei de ver-me arrancar de mim os cabelos
ou enterrar muitas outras vítimas no jardim.
e talvez
só talvez
não haja entre os fatos aí esparramados
um voltei.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

"Se queres rir"








Para J. T.

Se te ris
Ria. Que a vida tem sido uma comédia.
Mas não ria de mim, não com a intimidade que acreditas ter.
Foste também, como eu fui, parte de algo grandioso demais para caber sequer na ponta da língua.
E não cabe a mim tornar isto tão sólido quando já não passa de um sonho distante.
Não precisas voltar mais. Creia-me. E não voltes.
Por que se queres que eu termine algo quando não temos mais nada sequer para terminar, podes te rir de tua própria insanidade. Que eu, já aborrecida e desapontada com a rotina, rio de tudo, sem o mínimo esforço. Não falta muito para rir-me de ti enquanto chama-me louca.
Tanto tempo perdemos nas entrelinhas que eu cansei-me até de continuar as ladainhas do amor impossível. Ah, se me fazes falta? Como qualquer um que tenha durado o tempo suficiente para fazê-lo.
Mas não estás no centro das atenções, não estás nas estantes, não estás entre os meus penduricalhos. Nem estás.
Porque nunca estivesses além das cartas escritas. Nunca te esforçasses para ser mais do que o amor platônico.
Dei-te a oportunidade e a mim também. Não nos rendeu nem mais de uma noite. Uma noite. Queres rir de algo? Ria disto, porque rindo-me pude secar as lágrimas com o passar do tempo.
Não vês? Não temos nada para terminar aqui.
Nunca tivemos.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

"Borboletas aquarianas"



Letras maiúsculas num papel rasgado deixado de lado. Com marcas tênues de um sentimento forte. Que me arde. O cheiro arde como arde nas narinas o inverno.
Ouça o barulho dos papéis quebrando. Quando tu acendes o teu cigarro, pálida, leve, tão você que eu fui me viciando, tenho borboletas no estômago. É. E não é de todo ruim. Também pudera, de que me vale a vida se não estou lá? E os passos no chão, o que dizer destes? Pra quê serves, ó criatura humana, senão para serdes o melhor que podes ser? E as asas? Falemos delas: nós estamos aqui sobre a terra para aprender a ter asas.
Quando caminhava nada em mim deixava. E o sorriso tão opaco havia ficado, que quando o arrancaste de mim, atordoada e trêmula, esbocei o melhor que sabia fazer. E não sei o que em mim te convenceu de que ainda existo. Existo entre a luz cinza do céu azul claro. Mas eu havia me esquecido disto. É, tinha permanecido tanto tempo em mim, que me esqueci de voar.
Ora, sabeis que sou passarinho. Pois então, imagina-te um pássaro enferrujado. Assim o era, antes de ti. Diria até uma borboleta. Eu era. Ou sou. Não sei...
Mas se te perguntarem, e se puderes perceber, diga-lhe ao vento, esse meu amigo tão confidente de inúmeras horas vagas, qual das criaturas sou. E sejas tu meu céu. Ou voa comigo, se puderes.
Mas escreva-me algum dia. Não para mim nem por mim.
Escreva-me num papel amarrotado e deixe que o vento o carregue para longe.
Ou ainda, ponha-me amarrotada em uma garrafa e lança-me ao mar. Hei de caber, se for eu uma borboleta.
Mas, visto que já sou tão eu, não deves entregar-me a mais ninguém agora que já sou tão tua.

terça-feira, 21 de abril de 2009

"Um vislumbre do fim"



“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”

Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

"Faça existir"

Não me sinto bem.
É só a hora não passando de novo.
Eu não quero ser como você.
Mas estou viciada demais
Para cair fora.
Que droga.
Não diminua isto.
Não carregue nada além
[Do grito interior]
Não se lembre de mim
Esqueça-me!
Ou rasgue-me em pedaços
magoe-me.
Faça-me um zero
Dilacere meu coração
Engula todas as palavras que eu digo
[torne eterno do jeito que for possível]
Cole-me em você.
Vá amontoando nossos beijos
Eu me sinto ridícula
Apaixonada de novo.
Mas, oh, eu posso voar.
Que droga.
Não sem você.
Dessa vez eu levo alguém
comigo.
Vamos lá,
Faça arder.
Diga.
Doa.
Doe.
Desmanche, destrua.
desconsidere.
Porque independente do que tu faças
o céu vai ser
Sempre azul
Dentro de mim.

"Poema sem nome"

Sinto a pele
macia.
Sinto o deslize
de firmes lábios
depois o cheiro
viciante
o corpo pesado
e a alma leve.
sinto que até mesmo
as letras minúsculas têm sentido certo
quando quero descrever o temperamento
desses dias.
não, eu não tenho mais palavras.
Só não pare agora.
Não pare.
Podemos ficar aqui
até acertarmos o traçado
das iniciais em letras de forma
na parede da vida.
Você só precisa me dar a mão.
E aceitar uma criatura perfeccionista
de sobra.
Nós não temos sexo
nem parecemos um casal.
não somos nada.
Depois a gente decide o ser.
É.
Mas não te acalme do meu lado
Necessito-te inteira
Pulsante,
rebelde, se desejares.
Tenho pressa de mostrar-te o céu
antes desse azul desbotar
sem querer...

terça-feira, 14 de abril de 2009

"Tu"




Há uma garota em meus pensamentos
Uma garota.
Deus me perdoe
Há uma garota aqui dentro

O sonho de hoje:
Muita neblina,
Corpos que dançavam suspeitos.
Esbranquiçados. Desatentos...
Eras tu mais uma vez.
e a tua mão na minha.
E meu incontrolável ato de te tocar
[...]

"Se eu não achasse isso tudo tão começo..."

Me abrace
Só me abrace.
Porque eu sou um corpo estúpido
Que sente falta de ti
Me beije.
Só me beije...
Porque eu quero voar contigo
De novo
[e não me proíba de o querer]
Porque teu cheiro, calhorda
Inebriou-me de tal maneira
Que eu me sinto tão assustada e
Vulnerável.
Porque minha boca só treme
É da falta da tua na minha

Eu que tentei tocar-te inteira
Com as palavras
Me senti tão... nua
E querendo gritar-te aos ventos
Como quem encontrou assim
[derrepente] o sentido da vida
Guardei-te em mim.
E não disse uma palavra.
Parecia que todas se tinham afugentado
De mim naquela manhã azul.

Eu que nem ousei beber
Por sentir tanta sede de ti
Senti tanto medo
Que a inocente da água
levasse embora
Teu gosto em mim.
E enlouqueci
Enlouqueci.
Conversando contigo
Mesmo que não estivesses aqui.
Abri tantas vezes a cortina
Pensando que me esperavas
E guardei teu lugar na mesa
Cúmplice de tua ausência

Que para mim os outros soaram estridentes
A me chamar a atenção
Mas eu sabia que só podia estar
Em Um único lugar
Lá onde as promessas foram feitas
Como quem colhe flores
Na primavera
E os desejos sobressaem às folhas de papel

quinta-feira, 9 de abril de 2009

" Sobre o que eu deveria ter feito"



Quando seus olhos encontraram os meus

Uma palavra foi dita em silêncio
Eu ouvi Bach naquele instante
Estava ali,
sólido
Irresistível.
Seu corpo esparramou-se levemente
sobre a cadeira.
[Não era eu ali?]
A mesa, o poeta e o espelho
Escreviam torto em retas linhas
sobre o que eu deveria ter feito.
Reticências.

Reti-cências.

Eu devia é ter ci-ên-ci-a.
De que não se abrevia
Uma vontade assim.
use reticência e torne tudo mastigável.
[E não prometo que vá engolir mesmo assim]
Por isso a existência desse
item interrogatório
num fim de tarde agonizante tal qual este.
Sobre o que eu deveria ter feito
Quando seus olhos encontraram os meus...

(para a menina dos óculos de Harry Potter)

terça-feira, 7 de abril de 2009

"Tudo o que é permanente"



A vidraça quebrada
Na esquina da vida
A prostituta enclausurada
Na rotina
Um homem rico
perdido no Bairro da Liberdade
O mendigo ali esparramado
Estorvo
da humanidade
o alfaiate sonhando tenramente
o bêbado que acredita-se poeta
a liquidação no grande shopping
um poema barato tal qual este o é
o aguardente esparramado na mesa do recém
divorciado
as juras de amor encaminhadas às amantes
em bilhetes amarrotados
o jovem brincando de traficante
a fome
as armas
os tiros
as mortes
depois alguém que os escreve
alguém que os lê.

[...]

Se me perguntassem tudo que é passageiro:

A vidraça que foi quebrada
no cenário da esquina da vida pela
prostituta enclausurada
Na rotina, pensando quem sabe talvez largar esta vida
(sem contar as inúmeras vezes as quais ela desejou se matar)
Um homem rico
perdido no Bairro da Liberdade, pensando em como se desculpar com a família
Ele, que faz ou não parte das juras de amor em bilhetes amarrotados
Do incidente
do aguardente pingando da mesa,
Do divórcio flutuando na visão turva do bêbado que
acreditando-se poeta compõe poemas mais baratos
Que a liquidação no grande shopping onde
o alfaiate,
sonhando tenramente em colecionar muitos pares de verdinhas
nem sabe que o jovem traficante planeja assaltar
[A manhã]
De manhã, às cinco em ponto.
Por culpa da maldita fome nesse país ordinário
Onde quem dispara o tiro acredita-se vivente
Desapercebido talvez
de calor sólido
certamente indiferente
àquele que morre à sua frente

depois alguém que os escreve esperando que alguém
volte pra casa, para o antigo quarto de casal
com as malditas palavras na boca
de um “eu te amo” tão bem decorado ao longo dos anos – e gasto
feito sola de sapato muito usado -,
que faz os humanos pensarem que estão indo bem,
apesar de tudo.
E o mendigo ali esparramado
Sentindo-se estorvo
da humanidade, sim, é claro.
desejando nem um prato de comida
tendo a ambição única de saber ler
um poema barato como este aqui.

"O beijo eterno"

O rosto
Contracena
Rígido.
Até virar pó na lembrança
Da menina do balanço
alado.

Enquanto ao lado
Os lábios dançam
Escorregadios entre si
Estalando beijos tenros
Sob a luz vermelha
Do pátio do sanatório

O prédio range, desbota
se diverte
O guarda-pó está amarrotado do supervisor
Que incrédulo fez arderem os dedos no braço da vítima
Você não devia sair do quarto, mocinha.
Volte para lá.

A anestesia desce, ladeira abaixo.
O corpo pesa, flácido
O rosto adormece em plena luz.
Os lábios estão cerrados.
Eis aí a dádiva do louco nesse exílio flutuante:
Um beijo se torna eterno sob a luz vermelha.

"Você quer me conhecer?"



Então que esteja lá
Quando eu chegar correndo
Trazendo flores desenhadas
Num papel pardo com batom
[E que possa ser tênue comigo
Compreendendo que eu não levo jeito pra nada]
Que acabo de sair do ninho, sou um pássaro
Desajeitado

Que entenda meu silêncio ensurdecedor
Que me dê a mão na esquina
Onde o jovem se matou enforcado
Desiludido de amor, coitado
Eu que nem durmo sozinha
Passando a noite
Como quem passa na vida

E depois do cheiro ocre
Da fumaça do seu cigarro
Talvez eu seja um domingo cinza
Tentando colorir sua vida
Ou talvez que eu seja
O desenho que você pinta
Na rotina, assim, esmorecida
Pelo tempo dos seus problemas inúmeros
Que de números me fizeram desaparecer
No desejo antigo
De você querer me conhecer.

Porque eu fui ficando aí
Entre a sombra e a névoa
Perdida, confesso
Entre ser quem eu sou
Ou ser quem você quer conhecer.

terça-feira, 31 de março de 2009

“O significado da palavra complexidade”

Há horas tantas eu cá com meus botões. Isto deveria iniciar-se assim meio subjetivamente. Mas eu sou tão grotesca com as palavras. Ah, eu e minha boca grande. Daí alguém me sussurra no espelho:

- “não tente mais, basta”.

Eu páro. Um tempo do tempo, no espaço do mundo. Respiro. Só uma tragada deste ar solidário. (Posso sentir ele se arrastando por entre as narinas, tão confiante a me encher os pulmões quase despercebidamente). Mas a pergunta que me sonda a mente é tão irritante e peculiar:

- “O que você vê quando se olha no espelho?”

Mais um tempo. É só ele de novo: o silêncio. ...E minha consciência.

- Droga, deixa eu pensar. Pensa Michella. Pensa, guria. Tá ok. Eu... bem.. eu ...

- “Vão pensar que você é indecisa”

- É verdade. Pensarão. Mas não é isto que quero que pensem?

- “É?”

- Isto tem que ser mesmo um monólogo? Você poderia ser menos idiota?

- “Sai pra lá. Não me venha atalhar com essa pose de guria inteligente. Você está só aprendendo. E, na maioria do tempo, isto não significa nada”

- Significa que eu sou uma garota estúpida.

- “Não exatamente. Mas você chega lá.”

- Adoro meu próprio senso de humor.

Olhos azuis me fitam. A sobrancelha sobe e desce, a boca desenha um riso debochado. Estou inquieta, percebo ao olhar-me no espelho.

- Tá, eu não quero me dilacerar quando tudo que tenho é meu reflexo a me encarar zombeteiro.

- “droga de realidade, heim? Eu só posso lhe assegurar uma coisa. Você se manterá afastada daquela Juca.”

- Como pode me garantir isto?

- “Ora, não sou eu você mesma enlouquecendo e tagarelando sozinha na frente do espelho?”

- Bem, você tem razão. Eu quero mesmo é fazê-la pensar. Mas está mais difícil que andar pra trás com os olhos vendados. Jesus, Maria e José, é difícil me comunicar com as pessoas.

- “A escolha é sua. Você sempre opta pelo mais difícil”

- Tipo, eu acho incrível a forma como nossas vidas se encaixam em alguns pontos. Mas eu sei que isto não basta. Sabe o que ela me disse hoje?

- “Quê lhe disse ela?”

- Que sou complexa demais.

- “E de que forma você retrucou?”

- Não retruquei.

- “Sábia escolha”.

- Eu queria tanto que ela enxergasse a mensagem. Mas te confesso uma coisa...

O reflexo no espelho abriu e fechou a boca, impaciente. Engoli em seco. Mexi no cabelo desajeitadamente. Quando soou a voz, era eu quem falava. Eu acho.

- Temo.

- “teme o quê?”

- Temo não ter nada a dizer.

- “Explique”

- Temo não saber me expressar. Ora bolas, você mais do que ninguém sabe como sou desastrosa com as palavras!

- “Ei, relaxa. Se não funcionar... vai ser só mais uma. Você já viu tanta gente partindo mesmo”.

- Bem, eu...

- “Desembucha”

- É que eu não queria que ela fosse mais uma.

Silêncio. E havia o ar. Rasgando-me por dentro agora.

- Droga. Esquece isso. Você não ouviu isso.

Silêncio.

(...)

- Você pode falar comigo?

(...)

- Hei?!

Nada. A não ser a minha mesma forma coçando a cabeça desajeitada. Os olhos azuis estão cansados, quase se fechando. Sei que preciso tentar dormir.

- Droga. Este espelho está todo sujo. E eu sou uma idiota.

(...)

Antes de apagar a luz e deitar-me na cama, uma pequena consideração final:

“complexidade: intrincamento; emaranhamento.

Complexo: Intrincado, emaranhado, difícil de solução, recalque que se manifesta por associação emocional de fatores mentais que se subtraíram ao governo consciente, mantendo existência particular, perturbando ou estimulando as realizações conscientes...

Não creio que eu seja complicada nem complexa, mas tenho certeza de que crio esta esfera de complicação espontaneamente. Às vezes é sem notar, e às vezes é na esperança de tocar a alma da pessoa que está do outro lado... pra ver se ela, de alguma forma, resolve o nosso problema...”

(ass.: Eu agridoce)

"Saudade que fica, se eu for embora... não sou mais eu"

Ela me olhou nos olhos, a saudade.
Eu poderia dizer que era alta, magra, cálida. Que tinha os cabelos avermelhados e a pele parda ou que era fascinante e dócil e perturbadora ao mesmo tempo. Como o vôo rasante de uma ave de rapina. Mas a verdade é que isso não importava, o fato é que ela estava bem ali. E aqui, por dentro.

Não demorou para insinuar-se por sobre mim, com suas mãos suaves e frias feito uma sombra tênue de inverno a me roçar a face. Eu quase corei, mas contive a todo custo. Apenas sorri em respota um riso melancólico. Eu estava entregue, eu sei.

Ela me olhou nos olhos, a saudade. E logo me esparramei em seus braços sentindo-me um desastre humano. Por que é que desastres combinam tão bem com os humanos?
(...)
Foram muitos minutos, talvez um terço de hora. Ela não me disse uma só palavra, é sério. Em vez disso, empurrou-me um embrulho carregado de sentimentos que cheirava a lembranças engalfinhadas. Quando o abri, sorri e chorei.
Emudeci.
Gritei.

Ela sempre faz isso comigo. E não é que eu não goste dela - eu gosto e muito -, mas ingrata que sou, às vezes reclamo do presente.
Acontece, minha gente, que ela estava ali a me encarar de frente. Estava por todos os lados e não faltava muito para eu desaparecer em seus braços.
E eu me dissolveria sem sombra de dúvida.
Quase.
Inevitavelmente quase esqueci-me de que estava rodeada de pessoas no terminal. E o quase, minha gente, representa um bom pedaço de sorte do qual desfrutei naquele instante.
Havia lá aquele burburinho animado dos finais de noite, de pessoas falando ao celular, das novidades saltando de lábios vorazes até ouvidos quase distraídos de jovens cidadãos. Os rostos apressados virando pra todos os lados, o barulho dos passos, dos motores das pessoas a todo gás. A engrenagem humana é de todo fascinante, juro. E havia meu ônibus parado, esperando pacientemente apenas mais três minutos. Três minutos!
Ah, eu precisava ir para casa. Fiz menção de levantar-me.
Foi aí que ela, a saudade, me puxou pelo braço sorrateira. Fez cara feia, bonita de se ver.
Eu apreciei aquele momento de duas maneiras simultaneamente:

1- patética e submissa àquele vício;
2 - cheia de atitude pra ir embora.

Era uma escolha a ser feita. A gente sente o cheiro de uma escolha quando ela se aproxima. Tem cheiro de dúvida misturada com decisão.
Daí eu torci o nariz e ergui a cabeça decidida. É, eu cheguei até a sorrir para o semblante da saudade, mas a essa altura ela já tinha soltado meu braço, perplexa.

Prostrei-me de pé, ajeitei a mochila no ombro, dei meia volta e lá a deixei sozinha. Sem nenhuma palavra: eu pago na mesma moeda.
Só me lembro de que quando entrei no ônibus, desejei tolamente que ela, a saudade, pudesse de alguma maneira provar do próprio veneno...