terça-feira, 31 de março de 2009

"Saudade que fica, se eu for embora... não sou mais eu"

Ela me olhou nos olhos, a saudade.
Eu poderia dizer que era alta, magra, cálida. Que tinha os cabelos avermelhados e a pele parda ou que era fascinante e dócil e perturbadora ao mesmo tempo. Como o vôo rasante de uma ave de rapina. Mas a verdade é que isso não importava, o fato é que ela estava bem ali. E aqui, por dentro.

Não demorou para insinuar-se por sobre mim, com suas mãos suaves e frias feito uma sombra tênue de inverno a me roçar a face. Eu quase corei, mas contive a todo custo. Apenas sorri em respota um riso melancólico. Eu estava entregue, eu sei.

Ela me olhou nos olhos, a saudade. E logo me esparramei em seus braços sentindo-me um desastre humano. Por que é que desastres combinam tão bem com os humanos?
(...)
Foram muitos minutos, talvez um terço de hora. Ela não me disse uma só palavra, é sério. Em vez disso, empurrou-me um embrulho carregado de sentimentos que cheirava a lembranças engalfinhadas. Quando o abri, sorri e chorei.
Emudeci.
Gritei.

Ela sempre faz isso comigo. E não é que eu não goste dela - eu gosto e muito -, mas ingrata que sou, às vezes reclamo do presente.
Acontece, minha gente, que ela estava ali a me encarar de frente. Estava por todos os lados e não faltava muito para eu desaparecer em seus braços.
E eu me dissolveria sem sombra de dúvida.
Quase.
Inevitavelmente quase esqueci-me de que estava rodeada de pessoas no terminal. E o quase, minha gente, representa um bom pedaço de sorte do qual desfrutei naquele instante.
Havia lá aquele burburinho animado dos finais de noite, de pessoas falando ao celular, das novidades saltando de lábios vorazes até ouvidos quase distraídos de jovens cidadãos. Os rostos apressados virando pra todos os lados, o barulho dos passos, dos motores das pessoas a todo gás. A engrenagem humana é de todo fascinante, juro. E havia meu ônibus parado, esperando pacientemente apenas mais três minutos. Três minutos!
Ah, eu precisava ir para casa. Fiz menção de levantar-me.
Foi aí que ela, a saudade, me puxou pelo braço sorrateira. Fez cara feia, bonita de se ver.
Eu apreciei aquele momento de duas maneiras simultaneamente:

1- patética e submissa àquele vício;
2 - cheia de atitude pra ir embora.

Era uma escolha a ser feita. A gente sente o cheiro de uma escolha quando ela se aproxima. Tem cheiro de dúvida misturada com decisão.
Daí eu torci o nariz e ergui a cabeça decidida. É, eu cheguei até a sorrir para o semblante da saudade, mas a essa altura ela já tinha soltado meu braço, perplexa.

Prostrei-me de pé, ajeitei a mochila no ombro, dei meia volta e lá a deixei sozinha. Sem nenhuma palavra: eu pago na mesma moeda.
Só me lembro de que quando entrei no ônibus, desejei tolamente que ela, a saudade, pudesse de alguma maneira provar do próprio veneno...

Um comentário:

Gisélle disse...

Como todos os outros, este também é estupendo.
O vermelho já me fascina... imagina o verde!!!