terça-feira, 25 de outubro de 2016

Qual fora a última palavra que troquei com Seu Vilmar?


A dúvida me rodeou a mente a semana em que descobri que ele sofreu um AVC e ficou em coma.
Não esperava ter de escrever aqui que ele faleceu, mas também confesso que não foi uma grande surpresa.

- Alguma notícia de melhora do seu Vilmar?
- O Seu Vilmar faleceu semana passada - Contou-me a moça que agora o substitui emergencialmente no balcão.

Conversava comigo mesma e dizia para que ele fosse logo embora, afinal o diagnóstico, segundo boatos de elevador, era de que, caso sobrevivesse aquele homem grisalho de olhar exausto e voz semi-rouca, seria a muito custo um vegetal.

Isso me fez pensar naqueles famosos clichês de despedida e de como levamos nosso diálogo a um outro nível de consciência quando deixamos as pessoas com boas palavras, ou, no mínimo, palavras razoáveis.
De certo modo, considero-me privilegiada porque tive contatos bem distantes com a morte até hoje. Tudo bem, sou uma jovem de 28 anos. As despedidas que conheço bem são do amor romântico ou do prazer de me livrar de alguma companhia indesejada, que poderia atrasar os meus caminhos.

No ano passado, entretanto, perdi uma grande amiga e chorei muito dias a fio. Foi como se a vida quisesse que eu recuperasse o tempo perdido com este tema e me ofertasse um intensivo sem chance de devolução. Ana fora uma pessoa extremamente importante na minha formação de opinião, quando adolescente. Mais que isso, minha eterna companhia de ideologia. Ah, de Ana eu me lembro bem. Abracei-a fortemente 6 meses antes do acidente que ceifou a sua vida. Na ocasião, por ironia do destino, falávamos da partida de seu pai que também havia partido 2 semanas antes. O motivo dele? AVC. Espero que ela tenha todos os méritos que dizem haver do outro lado. Tenho certeza de que ela merece, independente dos caminhos que tenha traçado por aqui.

E, se for ainda bem justa, gostaria que o mesmo sucedesse ao homem do balcão da Flamingo. Eu conheço pouco do Seu Vilmar, é verdade. Trocávamos o essencial: bom dia, boa tarde, será que chove, que dia quente hoje, como está fresco aqui, não chegou nenhuma encomenda hoje, muito obrigada e até segunda! Mas isso, só isso, já me impede de tratar sua despedida com indiferença ou ainda de julgar qualquer coisa a respeito de suas andanças particulares.

Uma coisa a se aprender constantemente com a morte é que todos nós, se não estamos iguais em vida, nos igualamos em morte. Levamos nossos erros e acertos ao mesmo lugar no final, seja em uma fria lápide ou calorosa chama do processo de cremação. E não há como partir daqui sem levar esse peso de duas medidas. Talvez a única coisa que se pode levar além delas é a dúvida interminável:

- Afinal, quais foram as últimas palavras que nos dissemos?






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