quarta-feira, 12 de maio de 2010

Ainda que eu encontrasse palavras para dizer,

agora atravessa estas ruas um silêncio perturbador, imensurável.
A imobilidade do feriado se apossou das avenidas, submergiu a cidade no que há de mais brutal no mar do esquecimento. É como se, de súbito, os passos tivessem resolvido desabitar o mundo dos asfaltos. Nem mesmo um carro ou um ambulante solitário. Ninguém nesse direito de ir e vir. Ninguém em dobras de esquinas, em praças verdejantes, muradas que cercam prédios, nunca. Ninguém, nunca.

Pode-se apalpar o vazio nítido das vitrines das lojas fechadas, o teatro mudo, a beira-rio intacta, sobretudo a margem do rio, esse silêncio que flui numa torrente intransponível.
Somente o vento, leve e impessoal, preenche o campo de visão dessa cena. Faz isto por meios quase implícitos, através dos vestígios do outono que ficaram pelo chão.
Vejo que a mobilidade tem certa urgência em acontecer, que mesmo agora é possível prever os movimentos subseqüentes de um dia de mudez absoluta, que o verbo que não é dito nas ruas é suscetível ao próprio silêncio, que desprende-se dos telhados das casas essa luz feita de palavras inatingíveis, ao ponto em que o silêncio torna-se uma nota na música da vida e mais nada.
Esta pausa eu a reconheço, esta pausa. É em mim o motivo para sair sozinha, para desencadear buscas imaginárias de idas sem voltas em torno dos mesmos caminhos de sempre. Esse silêncio vem muito mais de mim do que das ruas, despenca das pálpebras cansadas, percorre toda a extensão da boca, dissolve-se sob o azul do céu e esmaga esse dia inalcançável através da umidade dos olhos. Esse silêncio eu o reconheço quando me olho no espelho, esse silêncio sou eu, subjugada por ele, é o que me tornei a partir dele, e por causa disso tornei-me aquilo que escrevo.

3 comentários:

Gisélle disse...

Que beleza de texto.... fluente, gostoso de ler...

Gisélle disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Oliveira disse...

O silêncio, às vezes, é o maior dos poemas.