quinta-feira, 6 de março de 2014

desencontro

Para Você. 

Há leitura que se lê branda e fluente, como há escrita que se derrama sobre o papel ou sobre a pele ou sobre a boca, naquele lençol, feito um mar de confissões.
Mas em março, durante a passagem dos alunos vistos pela janela, nada se escreve, nada se preenche, nem o quarto tampouco o papel, com as palavras que eu poderia dizer.
[...]
Ele repara no detalhe, o seu amor. Ouve atentamente enquanto respira.
Os lábios carnudos apertados - de não querer outra rendição que não o amor a eles - e os cabelos em cachos. Mas até quando? Não sabe ou finge não saber o quanto isso não mais lhe interessa. Talvez interesse, mas esse quebra-cabeças ficou complexo soturnamente e as mãos se apertam, ora tristes, ora trêmulas. Mãos que se entregam, que se amam, que são esquecidas. Não nos é permitido saber o porquê.

Ela permanece: escreve porque se não escrevesse não mais viveria.
Nos dias em que as rosas murcham, toma para si um bule de café e senta na varanda. Bebe alucinadamente e soluça. É verdade o que dizem por aí. O verão se afastou com a mesma velocidade com que marcou o seu início.

Ainda assim, nos dias fracamente iluminados, fica o perfume dela atrelado à roupa que usou na noite anterior, como uma rebeldia que sobressai à balança.




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

em nome do Rio

eu jurei que não entraria em outro triângulo amoroso novamente,
por que é que continuo caminhando nessa terra-de-ninguém?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

I've been out on that open road

Eu estava no inverno de minha vida – e os homens que conheci pela estrada foram meu único verão. À noite caía no sono com visões de mim mesma dançando, rindo e chorando com eles. Três anos estando em uma turnê mundial sem fim e minhas memórias deles eram as únicas coisas que me sustentavam, e meus únicos momentos felizes de verdade. Eu era uma cantora, não muito popular, que uma vez teve sonhos de se tornar uma bela poeta – mas por uma infeliz série de eventos viu aqueles sonhos riscados e divididos como um milhão de estrelas no céu da noite, que desejei de novo e de novo – brilhantes e quebradas. Mas eu não me importava porque sabia que era necessário conseguir tudo que você sempre quis e então perder para saber o que liberdade realmente é.

Quando as pessoas que eu conhecia descobriram o que estive fazendo, como eu tinha vivido – me perguntaram o porquê. Mas não há utilidade em falar com pessoas que tem um lar. Eles sabem o que é procurar segurança em outras pessoas, já que lar é onde você descança sua cabeça.

Sempre fui uma garota incomum, minha mãe me disse que eu tinha uma alma de camaleão. Sem senso de moral apontando para o norte, sem personalidade fixa. Apenas uma indecisão interior tão extensa e tão ondulante quanto o oceano. E se eu disser que não planejei para que tudo fosse desse jeito, estaria mentindo – porque nasci para ser outra mulher. Pertenci a alguém – que pertenceu a todo mundo, quem não teve nada – que quis tudo com uma vontade por cada experiência e uma obsessão por liberdade que me aterrorizava a ponto de não poder sequer falar sobre – e me levou a um ponto de loucura onde tanto me deslumbrava quanto me deixava tonta.

Toda noite eu costumava rezar para que pudesse encontrar meu povo – e finalmente encontrei – na estrada aberta. Não tínhamos nada a perder, nada a ganhar, nada que desejávamos mais – exceto fazer de nossas vidas uma obra de arte.

VIVA RÁPIDO. MORRA JOVEM. SEJA SELVAGEM. E SE DIVIRTA

Eu acredito no país que a América costumava ser. Acredito na pessoa que quero me tornar, acredito na liberdade da Estrada aberta. E meu lema é o mesmo de sempre.
*Acredito na gentileza de estranhos. E quando estou em guerra comigo mesma – dirijo. Apenas dirijo.*

Quem é você? Você está em contato com todas as suas fantasias mais sombrias?
Você criou uma vida para si mesma onde é livre para experimentá-la?
Eu criei.
Sou maluca pra caramba. Mas sou livre.

- Lana Del Rey



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Please sleep softly, leave me no room for doubt...

domingo, 5 de janeiro de 2014

à existência.

- Quase casei-me.
- Era o que queria?
- No princípio, sim. Havia convicção.
- Era o que queria a moça também?
- No princípio, não.
- Hum. Encontros e desencontros.
- Isso.
- E agora?
- Agora o quê?
- Como se sente?
(...)
- Sinto que não sinto mais nada. Eis o vazio.
- Sente vazio por tê-la perdido?
- Não é verdade, nunca a perdi. É que nunca nos encontramos. No amor raramente nos olhamos simultaneamente, de modo geral. Creio que aconteceu uma única vez, com outra pessoa. A esse fato dá-se a ideia da exclusividade, do sagrado, o amor único vivido. Todos os outros são subjugados por este acontecimento.
- Compreendo tudo. Concordo. Embora seja um erro. Basta encontrar quem esteja aberto para olhar enquanto olhas também. Reconheço, entretanto, a dificuldade dessa dança.
(...)
- Creio ter experimentado um relance desse encontro nos olhos de um novo alguém. Mas não é verdade, equivoco-me adestradamente.
- Gostaria que fosse?
- Gostaria que tivesse sido.
(...)
- Para livrar o primeiro amor da responsabilidade de ser único?
- Não sei. Sei que gostaria que nos tivesse sucedido. Senti-me tão próxima, como nunca antes. Mas a gente nunca sabe ao certo o que sente o outro. Pode ser que vagou longe, na lembrança de seu primeiro amor e não no meu olhar.
- Está profundamente magoada?
- Não sei. É o vazio. Talvez nunca suceda outra coisa que não o desencontro amoroso na minha vida.
- Não é verdade, há muito tempo ainda...
- É o que você diz.
- E você, o que diz?
- Não sei. Que  somos feitos de erros. Milhões deles. Nunca estaremos certos. Nunca.
(...)
- Nunca.