terça-feira, 16 de março de 2010

É de novo o mesmo céu

sobre nossas mentes despertas enquanto vou decidindo o que fazer com o que ficou pelos cantos da casa. Não seria preciso mais que um dia ao teu lado para me apaixonar de novo, e você diz que estou carente como se esse fosse o único motivo existencial entre nós; depois libera esse sorriso cheio de paciência e me diz relaxa. Não, não dizes nada, é só um sonho tolo do verão que se acaba.
Tudo o que eu sei está aí e não seria preciso tampouco colecionar as cartas que nunca envias, os vãos que vamos deixando entre um olhar e outro para sabermos que ali o acaso focou um pouco de nós a cada passo dado na estrada da vida, fazendo a fotografia que não existiu, mas que perpetua na minha retina ocular.
É essa dança muda entre os corpos que se distanciam por falta de alguma coisa que ainda não sabem explicar, essa luta muda travada por dentro dias a fio e os flagelos remascentes do nosso contato de meses insensatos, que vai me preenchendo palavra por palavra até o ato da respiração. As mãos não foram dadas, mas é tão intenso que me sinto desmembrada quando tens que ir.
Terias qualquer nome se eu pudesse ser além de quem eu sou quando estou longe d eti, e ainda assim não me canso de esparramar meus gestos ao vento, nessa necessidade explosiva de ver tudo o que eu não vi ao teu lado.
Assim ficam as palavras mudas nos lábios que já beijaste e que por uma vida inteira seriam teus se quisesses.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"...123. ...123. ...123."

O quarto. Surreal, espaçoso, amontoando-se por sobre seus corpos e os livros, o cheiro deles tomando seus pulmões. Os corpos, estes magros por sobre o lençol vermelho-sangue, desajeitados, ainda muito macios da maciez da juventude, dos odores leves e predispostos nas curvas translúcidas que imitam a travessia do rio. É impossível manter os olhos em algum ponto fixo, até estes se revoltam com a trepidez da fumaça do cigarro. Como querer tocar uma lembrança em vão, com as mãos perdidas nessa verdade eterna.

Ela se desprende, a lembrança se desprende, possui autonomia suficiente para isto, tal como o sorriso acontece ao acaso. Você se conteve no gesto, o tempo está se esvaindo por entre a boca muda num verbo feito de silêncio.

Sabe que não há pronúncia materializada, que os finais felizes são para aqueles que batalham por isto, então os dias pesam nas pálpebras desajeitadas e você dorme, silenciosa, com seus olhos azuis bem fechados, intocada por toda essa beleza que lhe circunda, feita de zeros e uns, de átomos precoces, de positivo e negativo, infinitos nas letras minúsculas, nas entrelinhas do corpo tal como o mantém na memória, e ri do modo como você se esforçou por conservar isto tirando fotografias com a sua retina luminosa.

Você anda através das mesmas ruas, os becos e semáforos familiares, e vai se esquecendo disto. Você deseja altercar, além-mar, um continente que talvez nem seja daqui.
E de repente você se vira, está de costas para o rio, os passos são os mesmos, quem te diria que fizeste o contrário?

Então sorri de novo, e sabe, tem a graça de o saber, que apesar de novembro, abril virá, em outros tempos, sem que você peça e mesmo que se chame por outro nome, perguntará e ouvirá a mesma pergunta em resposta “é, por onde você tem andado?” e saberá instintivamente que pelos mesmos caminhos de sempre sem contudo ser percebida pelo seu amor, tal como você se lembra bem dele agora, com a mesma sensação de tudo ser um começo e com a singularidade de ser sempre aquilo que lhe afoga sob manhãs azuis.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Doida"

Uma mulher atravessa a rua usando um robe vermelho, desses de banho. Invadiu o trânsito como se pudesse parar um desfile ao acaso, ficou estática ali no meio, sobre as faixas que seguem paralelas. É evidente que ela apresenta sinais de insanidade, leva seu jornal embaixo do braço e usa uns chinelos de pano muito surrados no mesmo tom acobreado de seus cabelos. Observo a cena, extasiada, demoro-me na fração de segundos em que o vento sopra e seu perfume chega até mim entre os estardalhaços das buzinas dos automóveis, que indignados, ressoam a algazarra matinal.

Muito tempo depois, quando já caiu em si, a mulher sacode a testa e caminha devagar, parecendo desvairada, até sumir no horizonte paciente. Ela jamais saberá que nesse instante em que surge de lugar nenhum e some no mesmo destino é fabulosa, porque ela não sabe, eu digo ao vento, porque ela não faz ideia de que é fabulosa eu digo baixinho, para que eu mesma ouça a sentença e faça dela uma verdade eterna.

Isso me faz pensar absurdamente demais sobre estes loucos, que estão presos em seus dormitórios, que usam aquele traje de louco e são vistos como tal. Ninguém jamais os vê, ninguém jamais os ouviu. Jamais. Os loucos da pandemia da idiotice, estes feito a gente, cheios de critérios e fábulas, espalhados sobre os poros da terra tal qual câncer terminal, parasitando enquanto se nomeiam dignos do que pensam e fazem, estes sim, todos loucos, se atirando uns sobre os outros por meio das palavras – e de quando em quando – atirando-se em corpos, em guerras quase surreais de tão atrozes, para ostentar a imagem já falida de poder que criaram em suas férteis mentalidades juvenis – aquela mesma porcaria de imagem que aprendemos assistindo à televisão, tomando coca-cola numa tarde de domingo, fumando a droga de um cigarro na companhia de amigos e bebendo a droga da cerveja – que é ruim pra burro até você se habituar e que no fim você nunca vai gostar de verdade (por que é que você acha que existem no cardápio cervejas com a pretensão escondida no título de menos amarga, afinal, senão para salientar que ninguém gosta do sabor de verdade?).
A mesma pandemia da humanidade, a doença do século, essa droga de certeza avara a respeito do ego, de se acharem o centro de tudo, essa coisa prepotente que vem embutida nos refrigerantes e nos energéticos enlatados, os quais eu e você bebemos sorridentes, com nossos sorrisos amarelos e máscaras de sextas-feiras à noite.
Quando eu me permitia ver coisas que não estas, ter sonhos que não os mostrados na televisão, eu era vista como uma esquizofrênica, até minha melhor amiga chegou a pensar que eu era mesmo estranha. Se eu me sentia mal com tudo isso? Eu queria morrer, o tempo todo, por não conseguir fazer parte do comum. Trancava-me em meu quarto e devorava livros, para supostamente aprender o comportamento que deveria ter diante dos outros, o de dissimular, acobertar, esquecer.

Hoje estou bem nas aulas de integração à imensa colônia, esse tratamento árduo que venho enfrentando desde que tenho consciência de meu lugarzinho fétido no mundo, esse mesmo lugar que você ocupa nele, sim, este espaço curto, temporário – devido à fatal proliferação de nossa raça dominadora.

Esta mulher de robe vermelho, eu já fui ela há muito tempo, era eu, sozinha em minhas épocas de sanidade. Hoje experimento entorpecentes e empurro a droga da cerveja para me integrar aos demais, sempre me arrependendo por dentro. Ou quando acendo a porcaria do cigarro pra lembrar como o fazia alguém. Não é segredo nenhum que já estou doente faz tempo, ainda tenho sonhos que não são daqui, mas estão diminuindo à medida que vou me drogando com a humanidade; e isso é o que faz de mim mais uma verdadeira doida enquanto o vento sopra o que resta de mim aos cantos da cidade.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Benevolência"

Parece que foi inventada, a minha existência, mas não foi proposital, um mero acidente de percurso nos planos de deus. Talvez seja isso mesmo e verdadeiramente não me importa mais o modo como dispenso repentinamente os gestos que venho repetindo ao acumular dos anos, o inevitável teatro dos dias, a inutilidade do eu enquanto eu pequeno, ignorante, adormecendo dia após dia, noite após noite, um turbilhão de ações e pensamentos indefinidos sem real nome, sem a real presença e definição que se espera de alguém feito eu.

Qual a utilidade, o real objetivo, o significado aí intrínseco, quase imperceptível e soturno demais para ser à tempo percebido, de ser eu, quem eu sou, quem pareço ser mesmo não sendo, a casca humana com trejeito involuntário, cuidadosamente ensaiado, moldada a partir do cotidiano, fruto daqueles que me precederam, se ao final de tudo não sirvo nem para impedir a morte lenta das pessoas que amo, o seu distanciamento tão certo quanto o ar preenchendo os pulmões, esse egoísmo irrefutável de quere-los próximos, todos eles; essa minha mania idiota de mudar as coisas, se não consigo fazer com que também eles, egoístas e ignominiosos feitos eu, não levem suas vidas embora e me abandonem numa esquina qualquer com a minha mente a pregar-me peças ao final da noite? E quantas vidas é preciso viver para se obter a simples resposta à essa pergunta fundamental?

Para isto servimos afinal? Para sermos infinitamente egoístas uns com os outros, para dizer que nos amamos sabendo, furtivamente, que desconhecemos o amor tal como o idealizamos... o teatro das razões, a peça que nos pregamos a nós mesmos, as vaidades aí proscritas, a benevolência que acreditamos sustentar às vezes, dentro de nós mesmos, essa querida voz interior que nos faz pensar que está tudo bem, e a cortina cobrindo sempre, privando-nos de nós mesmos.

Estou cansada, faz tempo, e vivi somente duas dezenas de anos, o bastante para enxergar o vazio dentro de nós, o suficiente para pressenti-lo enquanto a boca sorri, fala, perde-se em outras bocas, a mão que entrelaça quem eu acredito amar nesse momento.

Quem aqui sabe tanto quanto lê, pode-se então fazer-se vivo enquanto me lê. Não é desgosto nenhum ser lida, nem ser esquecida, nem nada. É desgosto estar trancada em linhas retas, entretanto, sem nem o saber. Finjo que sei, só finjo, quem é que não o sabe de pronto? Quem é que vive sem o saber? Eu vou lhes dizer do que é o desgosto e de como ele veio até minha janela noite passada, como único acompanhante.

De quem poderia dizer senão desse sujeito que me mata noite após noite? É que muito cedo na vida eu o conheci, o desgosto. Não faz tempo, não faz quase nada, só minha vida debruçada sobre as nuvens lá em cima. O desgosto me cegou, estou cega, talvez você possa dizer o mesmo, talvez nunca se encontre aqui em meio às linhas. De fato nunca vi nada além do que minha imaginação me propõe ver, porque estou cega desde sempre. Sempre conjecturando acerca da vida, foi assim que vim ao mundo, não poderia ser diferente.

Cá estava eu com meus botões, pensava um pouco sobre a vida, o pouco que sei disso, só um pouco, quase nada. É que não vim aqui para saber, não sei. Assumi o papel de telespectadora faz tempo, foi o que me salvou.
Assisto-me aqui, enquanto imagino que sou capaz de assistir a quem me lê. Então conto-lhes as estórias, imparcial. Sou e não sou eu aqui, lhes dizendo estas coisas. Não ignore se estas mesmas acusações vierem até você futuramente. Ninguém é, está. Todo mundo se parece alguma coisa, sobretudo, a própria aparência de ser algo que não se é. Quantas vidas é preciso para entendê-lo é que não se sabe mesmo, mas para ser sincera comigo mesma apenas esta já me seria o suficiente.

Vive-se aí o tempo suficiente para sanar essa dúvida mortal, e há quem prefira viver a vida toda. Eu desde cedo sanei as dívidas, até hoje estou sanando. Para que é que não sei; de fato o saberei ao final disso, é a lógica intrínseca da vida, tem de ser.
Mas não volto atrás por causa das dúvidas. Como poderia? Se de fato estou cega de que me adiantaria voltar no tempo?

O meu desgosto é o que me mantém sóbria, é maior que o tamanho de átomos histéricos, é muito maior, talvez maior que eu mesma, e ainda assim ridiculamente pequeno considerando-me um grão de areia na alma do deserto, e depois no mar, e depois sobre a terra que é a nossa casa, e depois em meio a esta imensa galáxia a qual estamos todos sujeitos, inertes, ignorantes.

A condição da consciência sobre o tamanho diminuto do existir é única e infringível, deve-se a ela esse respeito mudo de não saber nada, de não parecer nada, de não intentar saber nada. Deve-se a ela, talvez, esse teatro todo de nossa condição humana, desses gestos vãos, quase medíocres, a respeito da vida, do amor, e depois da morte.

Não acredito que haja a verdadeira benevolência entre nós, se houvesse não seríamos tão pequenos. Benevolência é saber disto, é ser sincera consigo mesma, sabendo que a única bondade que podemos esperar uns dos outros é que não sejamos tão ruins quanto acreditamos ser e ponto final.
Mas a mente prega peças. Instintivamente sei que também estas palavras perderão o sentido, porque estou cega, reconheço-me cega, e depois é o que se espera no final, e do final nada sei. Tomara que seja benevolente com a minha ignorância, para que também toda essa indignação não vire teatro quando eu estiver já velha demais para sequer respirar...

domingo, 4 de outubro de 2009

tu, meu amor. Absolutamente nenhum outro alguém.