quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

[Fernando Pessoa]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

incompleto.


é sim, é sim, deixa eu te dizer como estão as coisas aqui dentro com a tua saída. Toma um dos teus cigarros e acende para que eu fume contigo toda esta carteira antes que a noite acabe.

Parece que foi ontem, é, eu bem sei que tu bem sabes. Foi ontem que a gente sorriu brilhando lá fora, nossas bocas e nossos sorrisos, nossa cumplicidade surpresa, nosso abraço-refúgio. Mas essa voz marejada, esse olhar vacilante de agora na direção daquela cadeira que era tua, tão me deixando quase certa de que parece que já muito tempo passou desde que você se foi e deixou aquele lugar lá, vazio de você.

É, continuas lacerando, ainda que não de presenças puras, com os sorrisos matinais, os bom-dias estranhos, sonolentos e discretamente surpresos, mas continuas, vai.
Calma, segura firme esse cigarro entre os lábios. Não é chegada ainda a hora da mudez absoluta.
Quero te dizer agora, pra não dizer daqui a dez, quinze anos, quando nos esbarrarmos e nos estranharmos tanto.

Deixa eu te contar de novo.

Eu estava percorrendo com os olhos os locais aonde dispusemos todo aquele vento de novidade. Ali fora, onde sentamos tantas vezes, vez ou outra ainda senta lá a nossa imagem e fica reluzindo à luz do crepúsculo. Tanto que quando passo, me pergunto se há mais simplicidade do que aquelas cenas ali compartilhadas, tão bem enraizadas naquele banco que se entrega ao tempo.
Eu sei que na sorte de poder ainda te ver se distanciando, tomar esse rumo que é tão seu, deixei também o meu vento soprar pra outra direção, fechando aquela janela, abrindo outra porta-de-passeio. Nos momentos de calmaria ainda retorno ao banco e vejo teu corpo pequeno ali, divisando o rio, com teus enormes cabelos perfumando a cena, mas percebo que comecei a passar mais tempo longe dele tão logo notei que nossos últimos abraços ficaram marcados demais pra eu aceitar não te ver tão cedo de novo...


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

ponto e vírgula


queria que soubesses apenas o essencial:
o quanto sou grata por ter participado de tua vida
o quanto aprendi e ainda aprenderei com o que convivemos.


The trunk is filled with records
 And books and tears and clothes
 I'm smiling on the surface
 I'm scared as hell below
And the rear view could picture
 What we leave behind
 Drive darling, drive darling,
 Drive darling, drive darling, drive

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

La Couleur des mots


Se tens hoje este céu acinzentado te cobrindo como tenho os olhos meus, também sabes dize-los como digo eu : lembro-me desse rosto, dos finais de tarde refletidos nele, a luz que hoje nos falta nesse frio que sobressai.
Lembro-me agora perfeitamente de ter tomado estas mãos macias sob as minhas, de tê-las aquecido na margem do rio, de tê-las feito rosas de calor, de tê-las beijado e muito, e tantas vezes. Lembro-me do cheiro, é verdade, do cheiro que esse outono tinha e que impregnou a roupa que eu vestia.
Das palavras que não foram ditas também lembro, é delas que hoje falo, porque sua cor está esmorecendo e eu preciso pinta-las de novo, como uma verdade eterna.

Vou te dizer porque sempre te digo, mesmo não falando, te direi então que este meu mundo é todo teu, que também esta distância é tua, que tu estás acima destas coisas, destas pausas, destas indas e vindas. Digo-te de novo e sempre, som alto no vento, que é de ti que vem a poesia saindo dos meus lábios, que já eram tuas todas as minhas palavras antes de eu saber uni-las no papel, e que para mim elas sempre tiveram duas cores, como dois corpos de luz que destonam um ao outro quando insistem em ser dois, através de meios que hoje não te explico, mas que tu sabes bem e podes dize-lo à vontade por aí.
Escolhi hoje para ti esta manhã que é cinzenta, que representa a cor mais neutra entre nós nos tempos mais recentes, porque precisava te mostrar que ainda assim a estação é a mesma em mim, que ainda sinto as cores alternando entre esse cinza lá de fora e que tenho a mesma vontade por pinta-las nas paredes em ruas desconhecidas, que mesmo que insistas em passar por elas sem ver, já tens estas palavras guardadas como se eu as te tivesse entregue de antemão, porque agora te explicando mais uma vez, te digo que és toda a cor delas para mim.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

aquilo que liberta.

É quando me esforço pelo próximo, quando vou além do que consigo dar, sem entremeios nem satisfações, com esse desprendimento que antecede o ato de jamais receber nada em troca ou sequer o contentamento pleno por fazê-lo que dure do início ao fim da noite, que vejo quão impossível ainda é para um humano reconhecer a dificuldade além da que cada um sente.
Desmotiva-me esta realidade. Discursar é ainda para os desacordados, os histéricos e donos de sua própria verdade inventada. Quando mais me tomam por conhecidas as coisas, quanto mais prepotência percebo nos olhos dos que dizem que podem ajudar sem esperar a troca, mais o silêncio me veste divinamente e liberta, mas é uma liberdade dolorida de aceitar, se fazer entender, aceitar simplesmente.
Então, nesses momentos de desacordar, com uma insônia que parte e que vai além dessa dificuldade que me é humana, assumo que se tivesse mais hoje do que me foi dado (não dado), estaria muito mais desacordada do que agora, que esses meus olhos repletos de humana ignorância embora não ardessem tanto se eu pudesse partilhar do prazer de dormir, de me desfazer de um cansaço quase que existencial, me cegariam com privilégios embotados, e eu estaria sem essa consciência sombria, como que morta.

sábado, 13 de outubro de 2012

o amor é longe.


quanto do que é falado é realmente ouvido?
eles falam gesticulando,
os braços agitados, os cabelos caindo.

E esses olhos pesados.
deles a cor amarelada recobre o brilho,
deixa opaca toda a cena,
feito chuva amuada de domingo.