segunda-feira, 20 de abril de 2009

"Poema sem nome"

Sinto a pele
macia.
Sinto o deslize
de firmes lábios
depois o cheiro
viciante
o corpo pesado
e a alma leve.
sinto que até mesmo
as letras minúsculas têm sentido certo
quando quero descrever o temperamento
desses dias.
não, eu não tenho mais palavras.
Só não pare agora.
Não pare.
Podemos ficar aqui
até acertarmos o traçado
das iniciais em letras de forma
na parede da vida.
Você só precisa me dar a mão.
E aceitar uma criatura perfeccionista
de sobra.
Nós não temos sexo
nem parecemos um casal.
não somos nada.
Depois a gente decide o ser.
É.
Mas não te acalme do meu lado
Necessito-te inteira
Pulsante,
rebelde, se desejares.
Tenho pressa de mostrar-te o céu
antes desse azul desbotar
sem querer...

terça-feira, 14 de abril de 2009

"Tu"




Há uma garota em meus pensamentos
Uma garota.
Deus me perdoe
Há uma garota aqui dentro

O sonho de hoje:
Muita neblina,
Corpos que dançavam suspeitos.
Esbranquiçados. Desatentos...
Eras tu mais uma vez.
e a tua mão na minha.
E meu incontrolável ato de te tocar
[...]

"Se eu não achasse isso tudo tão começo..."

Me abrace
Só me abrace.
Porque eu sou um corpo estúpido
Que sente falta de ti
Me beije.
Só me beije...
Porque eu quero voar contigo
De novo
[e não me proíba de o querer]
Porque teu cheiro, calhorda
Inebriou-me de tal maneira
Que eu me sinto tão assustada e
Vulnerável.
Porque minha boca só treme
É da falta da tua na minha

Eu que tentei tocar-te inteira
Com as palavras
Me senti tão... nua
E querendo gritar-te aos ventos
Como quem encontrou assim
[derrepente] o sentido da vida
Guardei-te em mim.
E não disse uma palavra.
Parecia que todas se tinham afugentado
De mim naquela manhã azul.

Eu que nem ousei beber
Por sentir tanta sede de ti
Senti tanto medo
Que a inocente da água
levasse embora
Teu gosto em mim.
E enlouqueci
Enlouqueci.
Conversando contigo
Mesmo que não estivesses aqui.
Abri tantas vezes a cortina
Pensando que me esperavas
E guardei teu lugar na mesa
Cúmplice de tua ausência

Que para mim os outros soaram estridentes
A me chamar a atenção
Mas eu sabia que só podia estar
Em Um único lugar
Lá onde as promessas foram feitas
Como quem colhe flores
Na primavera
E os desejos sobressaem às folhas de papel

quinta-feira, 9 de abril de 2009

" Sobre o que eu deveria ter feito"



Quando seus olhos encontraram os meus

Uma palavra foi dita em silêncio
Eu ouvi Bach naquele instante
Estava ali,
sólido
Irresistível.
Seu corpo esparramou-se levemente
sobre a cadeira.
[Não era eu ali?]
A mesa, o poeta e o espelho
Escreviam torto em retas linhas
sobre o que eu deveria ter feito.
Reticências.

Reti-cências.

Eu devia é ter ci-ên-ci-a.
De que não se abrevia
Uma vontade assim.
use reticência e torne tudo mastigável.
[E não prometo que vá engolir mesmo assim]
Por isso a existência desse
item interrogatório
num fim de tarde agonizante tal qual este.
Sobre o que eu deveria ter feito
Quando seus olhos encontraram os meus...

(para a menina dos óculos de Harry Potter)

terça-feira, 7 de abril de 2009

"Tudo o que é permanente"



A vidraça quebrada
Na esquina da vida
A prostituta enclausurada
Na rotina
Um homem rico
perdido no Bairro da Liberdade
O mendigo ali esparramado
Estorvo
da humanidade
o alfaiate sonhando tenramente
o bêbado que acredita-se poeta
a liquidação no grande shopping
um poema barato tal qual este o é
o aguardente esparramado na mesa do recém
divorciado
as juras de amor encaminhadas às amantes
em bilhetes amarrotados
o jovem brincando de traficante
a fome
as armas
os tiros
as mortes
depois alguém que os escreve
alguém que os lê.

[...]

Se me perguntassem tudo que é passageiro:

A vidraça que foi quebrada
no cenário da esquina da vida pela
prostituta enclausurada
Na rotina, pensando quem sabe talvez largar esta vida
(sem contar as inúmeras vezes as quais ela desejou se matar)
Um homem rico
perdido no Bairro da Liberdade, pensando em como se desculpar com a família
Ele, que faz ou não parte das juras de amor em bilhetes amarrotados
Do incidente
do aguardente pingando da mesa,
Do divórcio flutuando na visão turva do bêbado que
acreditando-se poeta compõe poemas mais baratos
Que a liquidação no grande shopping onde
o alfaiate,
sonhando tenramente em colecionar muitos pares de verdinhas
nem sabe que o jovem traficante planeja assaltar
[A manhã]
De manhã, às cinco em ponto.
Por culpa da maldita fome nesse país ordinário
Onde quem dispara o tiro acredita-se vivente
Desapercebido talvez
de calor sólido
certamente indiferente
àquele que morre à sua frente

depois alguém que os escreve esperando que alguém
volte pra casa, para o antigo quarto de casal
com as malditas palavras na boca
de um “eu te amo” tão bem decorado ao longo dos anos – e gasto
feito sola de sapato muito usado -,
que faz os humanos pensarem que estão indo bem,
apesar de tudo.
E o mendigo ali esparramado
Sentindo-se estorvo
da humanidade, sim, é claro.
desejando nem um prato de comida
tendo a ambição única de saber ler
um poema barato como este aqui.

"O beijo eterno"

O rosto
Contracena
Rígido.
Até virar pó na lembrança
Da menina do balanço
alado.

Enquanto ao lado
Os lábios dançam
Escorregadios entre si
Estalando beijos tenros
Sob a luz vermelha
Do pátio do sanatório

O prédio range, desbota
se diverte
O guarda-pó está amarrotado do supervisor
Que incrédulo fez arderem os dedos no braço da vítima
Você não devia sair do quarto, mocinha.
Volte para lá.

A anestesia desce, ladeira abaixo.
O corpo pesa, flácido
O rosto adormece em plena luz.
Os lábios estão cerrados.
Eis aí a dádiva do louco nesse exílio flutuante:
Um beijo se torna eterno sob a luz vermelha.

"Você quer me conhecer?"



Então que esteja lá
Quando eu chegar correndo
Trazendo flores desenhadas
Num papel pardo com batom
[E que possa ser tênue comigo
Compreendendo que eu não levo jeito pra nada]
Que acabo de sair do ninho, sou um pássaro
Desajeitado

Que entenda meu silêncio ensurdecedor
Que me dê a mão na esquina
Onde o jovem se matou enforcado
Desiludido de amor, coitado
Eu que nem durmo sozinha
Passando a noite
Como quem passa na vida

E depois do cheiro ocre
Da fumaça do seu cigarro
Talvez eu seja um domingo cinza
Tentando colorir sua vida
Ou talvez que eu seja
O desenho que você pinta
Na rotina, assim, esmorecida
Pelo tempo dos seus problemas inúmeros
Que de números me fizeram desaparecer
No desejo antigo
De você querer me conhecer.

Porque eu fui ficando aí
Entre a sombra e a névoa
Perdida, confesso
Entre ser quem eu sou
Ou ser quem você quer conhecer.