terça-feira, 14 de agosto de 2012

a big hard sun



Eles vinham deturpando essas estradas, os cabelos agitados, as vozes ofegantes, consumidos na histeria do encontro, mãos amistosas e raras, sorrisos ofegantes da novidade de se reconhecerem outra vez, tinham as mãos soltas, tinham as mãos presas um ao outro, mãos que guiavam e se perdiam nas expressões dos verbos soltos. Seguravam estas mãos quando ela reparou no catavento.

Ele quis dizer alguma coisa de que ela já não se lembra, da qual não pode esquecer-se nunca mais. Ela disse: pausa para olhar o curso da água, ouvir o seu som; ele disse que é estranho ali, tão perto dele, um trejeito seu.
E então ela sorri, dá graça ao saber, que ela teria dito o mesmo se ele tivesse ocultado esse pensamento porque já não se pode calar, uma verdade assim acontece aonde quer que não queiram os demais ambulantes que atravessam a calçada atrás deles.

There's a big, a big hard sun beating on the big people in the big hard world

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Eu não vou poder trabalhar, conversar, descansar sem o teu sim

 
 Para A.L.

Ouça como eu ouço esta canção. Isso, vou te contar o quanto eu sei que a cada dia você vai andar mais os meus passos e que as minhas palavras serão como suas palavras, saindo daí e repercutindo e se estranhando, modificando-se nesse laborioso processo de descaracterizar-se para atingir um ser, uma somatória, um item que agora desconheço e que me foge a imaginação costumeira.
Quando falarem de ti, e enquanto o fazem agora, sabemos que não dimensionamos a quem se referem por exato, quisá saberão os falantes. 
Vou te confessar, explicar que não há exclusividade nisso, dentro do que somos para os outros, nem um pouquinho.
 Mas se eu parasse para pensar mais que viver esses dias no ímpeto do respiro, ao teu lado, não saberia dizer ao certo onde é que começa o que você termina, que eu já tenha descomeçado e mesmo assim nessas horas de desencaixe a exclusividade surge como um mar tempestuoso.

Então ouve, é claro que somos cada qual uma semente,  pássaros rasando o horizonte, duas direções independentes que por hora se sobrepõe. Ouve essa música como você ouve e anda do meu lado pelo tempo que tiver de andar, eu sei que nessas noites frias as nossas confissões de amor serão como um hino, uma mesma língua, essa música que eu ouço como tu a ouves, sem o notar, assim na respiração do momento.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

I think I thought I saw you try

sério que eu podia sentar aqui e montar esse quebra-cabeças com você pra depois fingir que tudo bem a gente desmontar e montar de novo, ou arranjar milhões de desculpas, ou inventar aquelas mentiras bem-contadas dos velhos tempos.
Mas eu me arrumei alguns motivos pra não cair de novo em labirintos vazios os quais, a gente cansa de saber, não darão em nada. E não tendo palavra, não tendo idioma ou afinidade maior pra te explicar que né, a gente lutou até onde podia (mesmo?) e morreu na praia, me pergunto quando foi que repousamos tranquilas desde então.

terça-feira, 31 de julho de 2012

sirius B.

Eu vinha colhendo esse mar de revoltas do passado, carregando o que sobrou de nós ainda nos traços do corpo que se modifica independente de que eu peça pra conservar os sabores dos contatos passados. Eu vinha cabisbaixa rua acima, escalando montanhas de distância de minha essência arredia, perdendo dentes em estado de graça, pedindo constantemente por um pouco de visão nesses teus olhos amedrontados.
esqueci aos poucos de que tua era a carne que ainda me conservava de pé, o rijo costume, o tato aguçado pra me retirar de novo das ruas imundas, por meios que ao lembrar hoje me estremecem os calcanhares.
Quanto mais eu penso nestas ruas como vias que guiem até o passado, mais claro fica o meio por onde recomeçar aquela velha luta encerrada repentinamente.

Você sabe, eu carreguei tanta coisa que não era minha que demorou para ver a luz de novo entre os vãos dos entulhos acumulados. Mas eu aqui sinto que floresço de novo, rumo ao que verdadeiramente me espera; menos alegre, porém menos densa, aceitando o porvir, com tanta cicatriz que fica difícil saber aonde dói menos, aonde você ainda pode tocar, e noto contente que quando começas a enxergar o ponto de partida, o nosso, o de todo mundo, ainda que esteja longe demais para ver a ponta dos portões iluminados daqui, aquela coisa que dá o riso pleno, começo finalmente a rumar pra casa...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

eu vejo.

Tenho dois dos meus olhares voltados para ambos, enquanto no canto do restaurante se amontoam com seus cafés. Estes dois hoje são meus alicerces, mas me entristecem tanto.
Fico nessa paz vazia, nesse canto amuada, tecendo uma hora, um encontro, um papo perdido entre a hora de acordar e dormir. E as bebidas proibidas, e os cachimbos com a fumaça se perdendo no espaço-tempo, parados, extintos nas vontades impecáveis da juventude perdida dia-a-dia, e toda aquela familiaridade de doer no peito quando um deles olha para mim e vê a impossibilidade de me arrastar até onde estão, até a terra-do-nunca e a minha aflição se perdendo em fogo-de-brasa dentro daquilo que me toma sempre: a falta de percurso.
E eu canto solitária da minha janela oposta, eu peço venham falar comigo, eu digo baixinho, eu grito emudecida, eu extravio o que estou fazendo, joguei meus papéis ao vento.
 de repente é ela quem me avista.
Nos seus olhos eu perdi o foco, a palavra dita, precisei escrever pra retornar ao que fazia, mas esse nada-cada-vez-mais-vazio ainda vai me matar.

Esses romances, essas dádivas em visão, sim, visão, imagem, ilusão perpétua que me conduzem a um constante esquecimento do que vim fazer aqui nunca são nada além dessa tristeza de não os ter, possuir, membrana a membrana, célula-tronco do meu ser em expansão, estes amores são estas mesmas xícaras de café isoladas, estas que ao acabarem empoeiram-se fracamente como aquela velha mobília herdada na minha família.
 Então me digo todo dia, nesse espelho soturno batido, que mais um olhar na direção deles me matará subitamente. E é tão certo que algum dia hei de parar, de abandonar, de não mais adornar-lhes as feições com esse meu sorriso bobo. 
[...]
- Ah, eu jogando palavras ensaiadas não presto pra nada. É certo que parte do que vim fazer aqui é perder-me, ainda que sofregamente nos semblantes destes dois e eu já não digo nada.



quarta-feira, 18 de julho de 2012

sob a carne, a rosa

agora que quase não preciso usar palavras para me defender já que segues usando a boca e de outra maneira me tomas, levo esse pedaço que te toca que me esclarece bem no íntimo quando sem pronunciar o verbo tu te materializas ao meu lado, subitamente doce e incandecente, ao ponto de me deixar à flor da pele, rasgando de.
-
e espera, até que a porta feche para dizer o que dizes tão bem sem as habituais palavras. Mas os meus olhos continuam te saldando por debaixo da chuva, passo a cada passo, para dobrarem a esquina te levando comigo pra dentro do ônibus lotado.

- e o que era culpa virou fracasso tardemente mas se conteve numa hora e de súbito desabrochou em rosa,
essa que agora te dou, por sobre o lençol.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Se quer poesia na palavra dita,



vou dizer-lhe como Ela compunha toda a minha vida:
- seu corpo todo era ritmo lento, cujo nome fazia arder o peito. Perdi toda a saliva, umedeci o rosto inteiro, era sol que ardia no inverno, de fazer frio no corpo inteiro. 
[...]
Debrucei-me sobre o caderno envelhecido de onde os versos vinham a dar voltas no pensamento, escolhi para mim
as últimas sílabas compostas: a música que dali ouvi um dia se converteu em gesto e prosa
e perdi de novo toda a noção do tempo quando soprou aquele vento pronto pra mudar tudo de novo, começar tudo de novo, revirar tudo de novo.