sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

. E é tudo nosso .

Quando falas de mim e eu de ti, mesmo que simbolicamente, oculta ou espalhafatosa, falamos de nós, das nossas palavras, dos gestos contidos nelas. E quando falamos de nossas paixões e do quão elas se tornaram cruciais para nossa existência aqui, de nossas atitudes, de assuntos triviais, mesmo considerando esta hipótese, a trivialidade dos mundos, das vidas circundantes, é como dizer eu amo esse texto, eu amo o que ele representa em mim por causa de ti, do que significamos para os dois lados da moeda, e além disso, do que somos tão cúmplices até quando distantes assim, entre os verbos soltos.


Sei que se falar aqui por enigmas estarei melhor me reportando a ti, pelo que vejo quando me olho no espelho, ao passo que me espias daí, a outra face. É esse sorriso que acontece só de imaginarmos, como quando tu sorri só de ler e saber, é essa canção aqui e aí dentro que faz toda a diferença, que simplifica tudo e coexiste. Então não me desculpo quando teus passos são apressados porque minha boca se move sem falar nada e mesmo assim continuamos nos entendendo. Sem muito tempo de te acompanhar, porque caminhas bem à frente, vou dizendo baixinho logo atrás: “aonde tu fores, eu irei”, sabendo que de um jeito ou de outro e é tudo nosso.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

sobre as despedidas

Aconchego-me repentinamente em teus braços para que saibas que procuro por tua proteção. Estive cansada demais de todas as complexidades do mundo e agora busco um gesto simples que faça com que tudo o quanto acredito não sucumba à hostilidade alheia. Entrego-me na hora da partida, te digo que não precisa ser assim, com dor que grita aqui dentro, te sinto afastando-se, sumindo à vista e não posso conter os olhos que, cheios d’água, já não sabem se despencam com o resto do corpo definitivamente. Tenho as mãos inquietas num ímpeto de te segurar mais um pouquinho, mas elas se voltam contra mim e dizem num gesto de segundos que você vai ficar bem, que nem o meu mundo nem o seu despencará por causa disto.


Eu que andei em caminhos que antes não andava, que estive bem ali, na corda bamba, e que ainda debato-me em confusão para voltar àquela rua que sei ser segura, eu te dou o melhor de mim e te digo que olhes tudo isto de cima, porque eu mesma já não posso, eu mesma já tenho a pele febril que antecipa a falta do teu toque.

Digo isso olhando-te nos olhos porque são esses que querem te falar, ao passo que sei que depois de tudo isso ainda terei de fazer as malas, olhar pra frente e ir embora deixando todo o resto para trás, como você hoje, à sua maneira, faz.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

breve estória de Narciso

Dois jovens deitaram-se sobre o areal. O som do mar distante os envolveu de súbito, a paisagem continuou naquela eternidade branda, clara como a neve, a areia da praia clara como a neve. A moça tem cabelos longos, fios que brilham sob o sol de verão mas que são escuros, escorridos, densos como o calor naquele país distante. O outro jovem é um moço de olhos amendoados, ele não tira os olhos dela, todos percebem que ele é seu cúmplice. Ele persegue o vulto do seu corpo, ele a adora, abraça-a. Ela então sussurra para ele, de repente grita. O que ela diz é que ele não ouvirá nenhum som, mais nada esta manhã, além desse eco que sobe do mar no horizonte, ela aponta em direção ao mar. Ele lhe sorri, os olhos sorriem para ela. Ele é Narciso, é o que é para mim, e eu digo que ela repete:


- Você não mais ouvirá o som do piano. E você esquecerá tudo, atém a mim.


A voz, sua voz é doce, mas Narciso nega ao passo que ela escuta dele:


- Você, nunca.


Ela o agarra, com força desesperada, o mantém mais perto, diz aproxime-se. O nome dela é ainda segredo para mim, está oculto, pode ser que nem esteja ao longo do texto, nunca. Ele a obedece, está rendido, cheira seus cabelos longos, repete o gesto muitas vezes ainda.


Depois Narciso dirá que quer cavalgar, ela dirá que a chuva se aproxima, mas que o quer tanto quanto ele, que cavalgar na praia é como um sonho, um desejo de criança. Eles permanecerão no mesmo lugar, é isso, essa estória acontece na mesma imobilidade de sempre, uma nova versão de si mesma no instante em que pára ou segue freneticamente o impulso vital do existir. É verdade que a essa altura o mar terá se tornado turvo, sim, mesclado ao céu escuro, mas o vento levará da praia toda a lembrança dos jovens antes que a chuva caia. E depois choverá por toda a orla, digo por toda a cidade, por toda a extensão do mar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

cansaço químico.

Devido ao cansaço extremo deitam-se sobre a cama os corpos frágeis. Estão rendidos sem que seja necessário o uso da palavra, isso, rendidos em suas dores particulares, entregues aos lençóis vermelhos como na lembrança da menina, mas são poucas as vezes em que se encontram dessa forma agora. No quarto ela diz, gesticula:

- não sei se estou sendo você ou eu. Estou apavorada de ser quem estou sendo.
- provavelmente as duas coisas, uma coisa só.
- provavelmente sim.

Ele é impassível quando diz abrace-a. Mas não é isso, o instante não acontece. É que estamos esperando que algum conhecimento ou alguma ignorância nos ensine, quando sabemos através da obviedade das coisas que nada pode nos ensinar nesse quarto fechado. A verdade é que não há nada que transponha essa barreira de quem somos no instante em que nos deixamos para ser entre essas paredes cúmplices. Há uma aceitação, uma sentença muda que percorre os espaços vazios, e então mais nada se move nesse quarto, tudo está em seu devido lugar, com a exatidão da existência, nas linhas e contornos, os ângulos do quarto, você vê que os amantes são impedidos por causa dessa imobilidade brutal.

O que é que então estamos fazendo além de coexistir?

O mesmo silêncio.

[...] as duas coisas, uma coisa só.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Há vezes em que

uso o silêncio para pronunciar teu nome, há vezes em que escrever é mesmo oculta-lo entre palavras livres, mas eu nem me lembro mais de como é isso. Fujo ao certo porque o errado me absorve e nessa estória de amar sem sofrimento chove. Chove muito. Uma chuva que transborda a alma, os olhos.


Lá fora também. Chove como em todos os meses de julho, as pessoas, lembro-me como se as tivesse na frente dos olhos agora, se amontoam nos supermercados, nas panificadoras, nos estacionamentos, se assemelham enquanto disputam um lugar seguro da chuva, irremediavelmente próximas durante minutos.
 Então digo-lhe que tenho algo para ser entregue, algo que é mais teu do que eu. Mas você não pode me responder porque não foi solicitada, você já não existe, não é? É fruto do meu esforço diário por te resgatar intocável no pensamento.
Se eu contasse as vezes as quais juro que estou falando contigo quando já não estás, perderia a conta nesse mundo das significações. Entretanto não se quer ouvir, esse tipo de comentário, se ignora, a contagem dos dias que nos faltam para então o nada é idéia a qual abandona-se, deixa-se estar.

Tudo é facilmente corrompido em meu corpo, salvo você. O resto, sim, é esquecido, a cidade, as pessoas, as ruas que dão em ruas e o vazio esparso entre elas, salvo você.

Entretanto chove e isso me é como uma verdade eterna maior do que sua ausência nos meus dias. Não queria declarar que estas palavras me saem despercebidas, disparadas por vontades contrárias mas penso que é como os relâmpagos que chegam urgentes e são vistos no reflexo da minha janela, como se fossem respostas remanescentes para tanto descaso.

Sei que é nesse ricochetear provisório que tu adentras o quarto.

sábado, 10 de julho de 2010

Por isso é que te escrevo

Existem variados motivos para te agradecer agora, mas a vista daqui de cima é tão grandiosa que fez meus olhos estranharem essa luminosidade que sobe da cidade à noite e acabei deixando as palavras de lado quando meu corpo já não fazia questão de lembrar o toque na pele de outro alguém. Contudo, sei que você me observa, com o canto do olho e mal disfarçadamente, você me mantém fixa nessa cena e estremeço só de pensar no que você pode estar pensando agora que tudo o que nos encobre é o reluzir das estrelas no firmamento. Então espero, silencio, espero e você me chama, diz olhe, eu vejo. Afirmo que não distinguo uma constelação de outra e digo a mim mesma que eu não poderia ter menos jeito de te tratar do que já tenho, sorrindo baixinho explico que é por causa dessa luminosidade que fico tão atrapalhada.

Digo, acima de nós existe mais vida, e você ri dessa minha pequena loucura inocente. Digo-lhe em pensamento, esperando que você tenha desenvolvido algum tipo de telepatia, que o que não existem são palavras certas, frases de impacto resoluto, que eventualmente poderiam te explicar quão agradecida fico diante dos pequenos prazeres da vida vindos dos amigos repentinos, que me contam estórias da história e me fazem perceber sobressaltada que isso é maior do que tudo o que tem me acontecido ultimamente.

Eu não sei até onde vai essa estrada, mas eu a conheço como a palma da minha mão, já que tenho andado nela tempo suficiente para saber levantar rápido depois de um tombo feio. Não tenho medo de dizer que também não vai dar em nada, de errar afirmando ou supondo coisas que não me cabem, não. Tenho é medo apenas e tão apenas de sair distraída mundo afora esquecendo-me de agradecer quem tem me esbarrado com tanta graça e sorriso espontâneo.  Por isso é que estas palavras que escrevo intuitivamente são tuas, e para isso te poupo até de ter que desenvolver telepatia...