segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

inocência.


É justo que os que me precedem lhe digam, tão em perfeito tom, assim, como que apalpando os teus ouvidos, que és amor deles, que deles és a parte mais intacta, a mais amada de todas as feridas.
Vem comigo a esse canto, que agora vou te dizer.

As minhas mãos estão lindas, de tão limpas, brancas. Nunca deixei de segurar com elas as tuas, movimentos sólidos no vento. Mas o que pulsa mais forte no peito não é bem o que quero te dizer explicando, é, sim, aquilo que por mais anseio sem ao menos conseguir em pequenas gotas de verdades te inundar.
Os meus pés separam-se ligeiramente, é que ando meio em desfoque, saltando entre uma rua e outra, cortei os cabelos.
Essas minhas pupilas dilatam, mas não de vícios que não os que guardo profundamente dentro do peito. Levará longo tempo ainda até abrandar esse fluir de palavras que vindos do branco ópio se disparava contra as janelas dos ônibus lotados.
Estou cega e má e feia, mas ainda sinto o verde arder nos meus calcanhares. Tenho mais medos agora, do que quando ao mundo vim pela primeira vez, e fiquei imóvel diante de tanta confusão humana.
Ora saio, ora volto, nada é tão certo quanto a inquietude que me rege. Por hora descanso no teu ombro, como a mais querida de todas as crianças, é que encontrei ali o meu refúgio e não faço pouco caso.

Preciso, sim, do teu abraço, assim de soslaio, repentinamente. E te digo que é de tudo que preciso por agora. Por isso, vá, continue andando, é necessária a tua caminhada. Atravessa logo essas fronteiras do você-não-você e liberta outra vez aquele sorriso solto. Sei que estou contigo a cada manhã que nos sentimos bem, que é mais real esse contentamento diante de uma cura para todos os males do que palavras bonitas numa segunda-feira, e que mesmo esse último já é alegria solta no vento.

sábado, 24 de dezembro de 2011

rememorar.


Uma vez tendo visto teu rosto, é preciso voltar os olhos novamente. Uma vez tendo ouvido o tom suave da tua voz, é necessário que se a ouça mais uma e outra vez, consecutivamente.
Não se pode determinar o significado do impacto que me causas quando segues andando, és de longe da vista a coisa que se quer próxima e por inteiro. És próxima o que o que se deseja mais estreito, mais unificado, mais como esse abraço que agora te dou  de alma e corpo inteiro.

Cada encontro é um passo para o que advém, cada palavra dita e não ouvida ou não dita mas vista, é força que te atrái de novo para essa surpresa de me conhecer, quando penso que toda essa empatia indica que já nos conhecemos bem.
Não me resta nenhuma dúvida, por menor que seja, de que o que sentes é também o que eu sinto, e que logo começas a entender, pouco a pouco, que nem as palavras ouvidas nos são necessárias, que o discurso entre nós torna-se supérfluo, apenas empatia escrita, comunicada.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

é pouco tempo.

vê? um dia ainda é muito pouco, quando uma noite não te bastaria.
sentes? é mais um alguém que se vai levando de ti os números inteiros.
eu queria te dizer, menina do espelho, junto ao ouvido, o que sinto e o que vejo,
mas levas essa caminhada pra longe de mim a cada nova manhã...
Buscas com que te ocupar, procuras a quem te ocupe,
distante do que já te disse e volto a dizer:
nao é por tua culpa, eu te juro, é só por tua ignorância.
e nao é culpa tua que estejas envelhecendo,
é só o curso natural das coisas.

Toma para ti todas as marcas que foram deixadas porque nada se pode levar além delas, leva embora contigo, mesmo para debaixo da terra. Diga que o é, que é suficiente, mesmo sabendo não sê-lo, invente.
Segura firme nas mãos esse vento que soprou lá fora,
quando se olharam sem se ver, lado a lado, e o dia foi tão pouco.

"and all the roads we have to walk are winding
and all the lights that lead us there are blinding"

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

de pequena.

uma fotografia.  Eles estão prestes a capturá-la, essa imagem que eu sou, tão pequena, tão à deriva, estes meus pezinhos usando os sapatinhos que me puseram, esse vestido branco impecável, essa longa fita em volta do pescoço.

Isto é o que vejo: todos chamam Michelle, olhe, Michelle aqui.

E eu só consigo mexer os dedos das mãos enquanto mantenho o rosto sisudo de um futuro próximo. sinto ainda essa leveza de quem não sabe que existe, sinto que colocaram esse cobertor por baixo dos meus pés, dizem que é para que eu não fique com frio, asseguram-me e beijam-me nas bochechas.
O atrito do beijo na face me incomoda, acho que torço um pouco a boca, mas mantenho estes olhos compenetrados.
Dizem então, como em respostas aos olhos, são dois lagos azuis profundos, o mundo há de os ver, serão sempre precisos, mesmo magoados.
Não me lembro de ter pensamento. Tenho dois anos. Dois anos. Não me é o bastante.
Tenho estas sensações, que antecedem ao pensamento, tenho uma vaga ideia do que é a vida, e mesmo assim tudo continua sendo um sonho distante...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

quase, amor.

Mas era porque estávamos extenuados um do outro que continuávamos sendo exaustivos. Era porque já não suportávamos não poder ser além de insuportáveis, que seguíamos com olhos faiscantes e palavras ferozes.
Obviamente era porque precisávamos tanto ir além e não podíamos, necessitávamos desse contato corporal, dessa paixão violenta ao passo que, impedidos por nossa moral e sociedade, nos odiávamos um pouco mais, dia-após-dia, em lugar de amarmo-nos como fomos levados a crer que tinha de ser, por nossas vontades mais inexcrupolosas, ou amantes ou odiantes um do outro.
Essa idéia era fixa, intransponível, era um precipício que nos levava ao desencontro carnal.
Jamais nos foi possível transcender a ideia sólida do casamento, do que ele representa social e espiritualmente, essa lei divinal, essa autoridade imaculada.
E era para nos vermos, era. Então nos víamos, mas tocávamos pouco um no outro, era proibido. Ouvíamos então atentos e moribundos, os nossos suspiros e as nossas palavras, porque eram os nossos suspiros e palavras que tínhamos unicamente.

Duas vezes nos beijamos, duas vezes, e cada um caiu no escândalo de seu próprio martírio.
Esse tabu, devo dizer, é que me impelia a tornar aqueles poucos beijos eternos, antes de ter de transformá-lo, o amor, este amor aí, em algo insignificante, tão banal quanto esta escrita que agora, de certo a ti como a mim, me acomete como um sonho distante, uma confissão negligenciada pelo fluir do tempo.
Digo estas coisas porque é preciso lembrá-las de tempos em tempos, é necessário que eu me lembre de onde vêm certas cicatrizes, certos acontecimentos.

Hoje este vento que me remete é um grito agudo e rebelde por esse amor transformado no acaso. Fala em mim essa voz da revolta, a qual cada verbo não dito no passado me estremece e expõe essa minha indecência moral.
Diante dos homens, da sabedoria falsa e inútil dos homens, eis que me envorgonho unicamente de não tê-lo amado, de não tê-lo sentido junto ao meu corpo, de não tê-lo dado essa carne ardente que tenho entre as pernas, quando lembro de tudo que ainda não vivi...

sábado, 15 de outubro de 2011

Aí eu disse quem tem medo é você.



-Mas veja, garota, já tudo é tão pequeno nessa cidade, tudo é tão estreito, tão aprisionante, que a gente vai percorrendo todos os espaços do corpo numa histeria que dura uma eternidade.

-E não se pode correr adiante, depois desse limite de espaço.

-Então você voa, voa longe com o pensamento. Você escolhe de novo dar essas mãos ao vento. E é o vento que te leva pra longe.

-De novo com essa estória de voar?

[tempo]
Penso, depois respondo:

- de novo, querendo inventar vida nova.

- Você nunca está contente com nada, eita egoísmo! Vai acabar sozinha. Não tem medo, não?

-Medo de quê, cara?

-De ninguém te aceitar com essa liberdade toda, de ficar sozinha.

- De ficar sozinha, não. Tenho é muito medo de não ser feliz.
[...]

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

hoje você vai GRITAR aqui dentro.

Hoje, cada célula do meu corpo ecoa teu nome, o som que esse nome produz, o frêmito dessa impaciência, da cólera advinda da saudade.
Estou sempre aguçando essa falta em mim.
Serei ainda mais profunda para atingir a realidade, pendendo ao real romantismo colerizado que hoje me assola.
Cada extremidade do corpo reproduz essa saudade, replica essa memória que guardei salva da mudança dos dias.
Essa proporção toda, essa memória incandecente que flui livre e contínua transborda dos meus olhos para fora, dos meus ínfimos poros, de toda a epiderme e o corpo, assim aos gritos, dói. Dói como dói uma laceração qualquer ali no joelho da criança que caiu, lá no braço do rapaz acidentado. Dói como uma célula rebelde que cresce anormal e pegajosa. É como a crença na dor, como ela faz doer, com essa capacidade mortal.
É essa dor que me leva de volta a você, essa dor da saudade é o ponto de partida.

Hoje, dominada por essa dor, ando nostálgica, tropeçando nas palavras, nos paralelepípedos da cidade, ali onde tantas vezes quase acidentada, tornei a viver.
Dessas emoções sou escrava, sou de novo liberta e torno a aprisionar o que em mim agora acontece pouco: é esse riso trêmulo e solto que a boca dá, quando o corpo ainda repete os fantasmas do passado.