sábado, 9 de abril de 2011

Depois do Começo.

Eu tinha sentido, eu tinha captado essa palavra que tu não reinventavas, que estava ali, que se fazia presente no discurso dos olhos controlados.
Eu tinha percebido entre os odores do teu corpo maciço e as tuas mãos insistentes. Não obstante eu te disse não te reinventes à minha frente, mas quando durmo. Porque acordar de manhã e ter estes olhos já mudados é de certo a ti como a mim desolador, mas mil vezes mais aceitável que vê-los mudar diante das mãos, impalpáveis e certeiros.
Não importa o quanto tu experimentes, o quanto eu te queira mostrar, estamos já tão distantes nesse abraço caloroso que chegar mais perto é inevitável.
Veja que é abril, veja como eu enxergo, como deve ser visto. Olha com estes olhos meus. Lembra-me muito quando eram dela todas a minhas palavras de amor, de quando nossos corpos se amavam na urgência da vida, faz-me querer isto de novo sempre.
E é abril de novo, só por isso vou sorrindo meus dias inteiros...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Souvenir de abril.



Nem te disseram, os olhos estúpidos, quem estava lá te observando. Nem finas margens de lembranças ressaltaram as ondas do teu pensamento, nem fixaram as pétalas das flores no teu ar o cheiro de quando eu estava lá. De forma que nada te toca sem que peças por favor. Nada te preenche nem alcança sem que realmente o queiras. E assim posso ser passageira tanto para ti quanto rápido quiseres que o seja.

Atravesso a cidade inteira sozinha, dando espaço a esse vazio que fica depois do prelúdio dos amantes histéricos, permitindo que a curva do rio afogue as marcas da tua pele em meu corpo, que o cheiro e o sabor da tua boca seja gasto em cada cigarro aceso, que os nimbos acinzentados inundem os meus olhos aflitos.
É assim que se morre segura e esquecida, um pouco a cada dia...

terça-feira, 15 de março de 2011

Quem é o inimigo, quem é você?


Quando eu termino e tu começas, esse discurso tão bem ensaiado, somos dois protagonistas desarmados, vivendo dos nossos falsos amores e bens-querer.
E quando tu, distante e perplexo, observas os meus passos sumindo nesse horizonte nebuloso, calculo que não é o bastante para cobrir esse nada que fica aqui, quando te deixo só, para estarmos a sós, sem esses corpos em conflito constante.
Como não bastasse essas  falas, explicas a sentença usando essas palavras doces, a frieza em voz de veludo, deixando meu corpo em estado febril, e mentes, dissimulas, argumentas as tuas agressões, as discussões, as temporárias afinidades entre esse meu ir e vir de lugar nenhum em tua companhia, uma lembrança que é irrefutável agora, que vai assombrar por um longo tempo. Culpas a mim e aos que a mim se uniram, extrapolas a razão usando um falso sentimento que já não te cabe mais. Ouço tudo atentamente, tendo o cuidado de não te contrariar, para não gerar motivo de perguntas retóricas nessa torrente que salta da tua boca para a minha, em profusão.
Então prossegues, discursas, aumentando a escolha das palavras, contracenas tão bem.
Discursando, não te escapas de mim porque não o percebes, mesmo não o querendo, te rendes momentaneamente e és meu, em redenção a esse sofrimento da impossibilidade de sermos dois, pacíficos embora esgotados.
Mas te empenhas em erguer estas barreiras, manténs o erro destas mesmas limitações que levei dois anos para pôr abaixo. Estás te engrandecendo por nada, ou por mais um punhado de falsas verdades e te acreditas correto e justo nesse teu mundo de significações. Temo por ti, por esses olhos fechados e essa boca entreaberta, temo em grande parte, porque nesse ocaso dos meus diálogos desgastados, já se me escapa o dia em que te encontrarei sorrindo e delirando de saudades,  cheia de vontades por nossos desencontros certeiros; e dizendo que já não me ouves, explicando-te pacientemente que a comunicação tornou-se impossível entre nós, confesso-te antes de pensar em ficar, que já é tarde demais para falsas desculpas, que já não compensa mais um beijo nesses lábios de Judas que tens.

sexta-feira, 4 de março de 2011

sobre tudo e nada.

É verdade que ainda não desfiz teus passos pelo quarto. Ainda não recolhi a roupa que foi tua temporariamente, não juntei teus cabelos caídos, ou expulsei teu perfume que teima em presença sobre o travesseiro e me debocha.
Ainda não desfiz essas malas de idéias, nem de horrores dessas brigas tão inúteis. E tampouco abri a janela pra espalhar esse meu desassossego que me mutila minuto a minuto. Não lavei essa minha cara de desordem, nem tirei teu gosto do que me é mais íntimo no corpo - algumas marcas viram tatuagem, não é?
Quando você se foi fiquei como que estável, paralisada nessa minha rotina de não-você por todos os cantos. Hoje, estática, escolho entre pontuar essas linhas ou lábios vivos mais dóceis.

Não é de ti que advém a decisão, mas da minha dor que a cada dia se espalha por todos os nervos do corpo e me impossibilita. Os meus lábios tremem de novo, cada vez que sem ti, nessa impossibilidade de tornarem-se um elo, se retraem tímidos em sua contrariedade e me causam esse misto de medo e compaixão.

Para não virar escárnio de minha própria condição imaginária, eu os devoro. Com essa mesma dor que hoje tu, ausente, me causas, devoro os meus lábios em bocas alheias.




sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

. E é tudo nosso .

Quando falas de mim e eu de ti, mesmo que simbolicamente, oculta ou espalhafatosa, falamos de nós, das nossas palavras, dos gestos contidos nelas. E quando falamos de nossas paixões e do quão elas se tornaram cruciais para nossa existência aqui, de nossas atitudes, de assuntos triviais, mesmo considerando esta hipótese, a trivialidade dos mundos, das vidas circundantes, é como dizer eu amo esse texto, eu amo o que ele representa em mim por causa de ti, do que significamos para os dois lados da moeda, e além disso, do que somos tão cúmplices até quando distantes assim, entre os verbos soltos.


Sei que se falar aqui por enigmas estarei melhor me reportando a ti, pelo que vejo quando me olho no espelho, ao passo que me espias daí, a outra face. É esse sorriso que acontece só de imaginarmos, como quando tu sorri só de ler e saber, é essa canção aqui e aí dentro que faz toda a diferença, que simplifica tudo e coexiste. Então não me desculpo quando teus passos são apressados porque minha boca se move sem falar nada e mesmo assim continuamos nos entendendo. Sem muito tempo de te acompanhar, porque caminhas bem à frente, vou dizendo baixinho logo atrás: “aonde tu fores, eu irei”, sabendo que de um jeito ou de outro e é tudo nosso.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

sobre as despedidas

Aconchego-me repentinamente em teus braços para que saibas que procuro por tua proteção. Estive cansada demais de todas as complexidades do mundo e agora busco um gesto simples que faça com que tudo o quanto acredito não sucumba à hostilidade alheia. Entrego-me na hora da partida, te digo que não precisa ser assim, com dor que grita aqui dentro, te sinto afastando-se, sumindo à vista e não posso conter os olhos que, cheios d’água, já não sabem se despencam com o resto do corpo definitivamente. Tenho as mãos inquietas num ímpeto de te segurar mais um pouquinho, mas elas se voltam contra mim e dizem num gesto de segundos que você vai ficar bem, que nem o meu mundo nem o seu despencará por causa disto.


Eu que andei em caminhos que antes não andava, que estive bem ali, na corda bamba, e que ainda debato-me em confusão para voltar àquela rua que sei ser segura, eu te dou o melhor de mim e te digo que olhes tudo isto de cima, porque eu mesma já não posso, eu mesma já tenho a pele febril que antecipa a falta do teu toque.

Digo isso olhando-te nos olhos porque são esses que querem te falar, ao passo que sei que depois de tudo isso ainda terei de fazer as malas, olhar pra frente e ir embora deixando todo o resto para trás, como você hoje, à sua maneira, faz.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

breve estória de Narciso

Dois jovens deitaram-se sobre o areal. O som do mar distante os envolveu de súbito, a paisagem continuou naquela eternidade branda, clara como a neve, a areia da praia clara como a neve. A moça tem cabelos longos, fios que brilham sob o sol de verão mas que são escuros, escorridos, densos como o calor naquele país distante. O outro jovem é um moço de olhos amendoados, ele não tira os olhos dela, todos percebem que ele é seu cúmplice. Ele persegue o vulto do seu corpo, ele a adora, abraça-a. Ela então sussurra para ele, de repente grita. O que ela diz é que ele não ouvirá nenhum som, mais nada esta manhã, além desse eco que sobe do mar no horizonte, ela aponta em direção ao mar. Ele lhe sorri, os olhos sorriem para ela. Ele é Narciso, é o que é para mim, e eu digo que ela repete:


- Você não mais ouvirá o som do piano. E você esquecerá tudo, atém a mim.


A voz, sua voz é doce, mas Narciso nega ao passo que ela escuta dele:


- Você, nunca.


Ela o agarra, com força desesperada, o mantém mais perto, diz aproxime-se. O nome dela é ainda segredo para mim, está oculto, pode ser que nem esteja ao longo do texto, nunca. Ele a obedece, está rendido, cheira seus cabelos longos, repete o gesto muitas vezes ainda.


Depois Narciso dirá que quer cavalgar, ela dirá que a chuva se aproxima, mas que o quer tanto quanto ele, que cavalgar na praia é como um sonho, um desejo de criança. Eles permanecerão no mesmo lugar, é isso, essa estória acontece na mesma imobilidade de sempre, uma nova versão de si mesma no instante em que pára ou segue freneticamente o impulso vital do existir. É verdade que a essa altura o mar terá se tornado turvo, sim, mesclado ao céu escuro, mas o vento levará da praia toda a lembrança dos jovens antes que a chuva caia. E depois choverá por toda a orla, digo por toda a cidade, por toda a extensão do mar.