segunda-feira, 26 de abril de 2010

Anestesia Literal.



Hoje a confusão tomou conta do manicômio. Quando a enfermeira trouxe as drogas do cotidiano dispostas na bandeja azul, olhou-me com ar estranho e instintivamente cuidei para que aquela convicção não gerasse motivo de alerta em mim. Mas deixar de tomar a anestesia não evitou que eu fosse incluída na algazarra inesperada, muito do contrário, fui levada pela urgência da ocorrência como se fosse alvo fácil.
Jack, o garoto dos ombros caídos, dos cabelos ensebados, do andar coxo, cortou os pulsos esta manhã. Uma longa extensão da sala foi preenchida pelo sangue venoso de Jack. Olhei com horror e estupefação para os loucos que gritavam desesperados enquanto andavam em círculos na sala pequena. Foi preciso mais que força de vontade para me manter ereta diante de toda aquela torrente indescritível de sangue e barulho humano.
Quando enfim consegui caber em mim, ajudei Jack estancando os cortes abertos de onde jorrava sangue e dor em profusão. Evitei contaminar-me com os vermelhos ali expostos, mas ao fim de tudo a tontura me alcançou com verdadeira agressividade. A enfermeira irrompeu na sala acompanhada, tinha os cabelos envoltos na adrenalina do instante, por isso estavam como que esvoaçados. Balançou a cabeça diante de minha impotência e ao seu comando fui posta de lado por mãos masculinas muito perspicazes. Não me lembro dos instantes posteriores, tudo está tomado por uma tela branca intransponível.
Só no início da noite ouvi vozes de calmaria, quando já estava tomada pelas mesmas drogas que havia recusado de manhã, então adormeci com o sorriso zombeteiro da enfermeira na cabeça...

sábado, 24 de abril de 2010

verbos pequenos.


Quando minhas palavras te alcançarem, terás o mundo inteiro desabando à frente e qualquer motivo que tenha ficado para trás enquanto nos olhávamos será trazido à tona bem a tempo de você fechar os olhos e balançar a cabeça em negação. Enquanto você precisa ir longe para captar o óbvio das coisas, enquanto você vê mas não enxerga estremeço na curva do caminho esperando que o caos se livre logo de mim nas avenidas, para que minha imagem seja a foto desbotada sobre a mesa, pedindo para ser rasgada a qualquer custo. Quando eu tiver de deixar você ir enquanto já está indo, tudo não passará de um sonho, de um beijo dado no silêncio da noite. Por que não se pode falar de amor comigo, porque não permito que se fale de amor sem ter certeza que isso vai além do alcance das palavras...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

"quebre a cabeça..."




A menina do anel procurou quem encontrar em bares da cidade, buscou mais motivos para fumar mais uma carteira de marlboro vermelho, ajeitou o cabelo e vestiu-se de roupa nova. Pegou seu skate e sorriu diante dos tombos inúmeros que vida dá sobre quatro rodinhas singelas.
Depois se reuniu com pessoas estranhas, dançou com gente esquisita, falou de física quântica nas escadas da cidade como quem fala de um poema predileto enquanto tocavam suas canções favoritas no violão.
Sentou-se à beira do lago, olhou para o céu noturno no parque e quis deitar-se sobre a grama para lembrar-se de como é ter a leveza no corpo num dia de feriado.
À essa altura de tanto ser, a única coisa que desencaixou do quebra-cabeças da vida foi lhe ser conhecido que alguém está para ir embora, alguém que para ela valeu cada segundo desses meses mais recentes, até mesmo quando era para não valer nada. Esse foi o único motivo que encontrou para não dormir sorrindo e para morrer de medo naquela noite.

sábado, 17 de abril de 2010

Por um instante, mãe,

sim, por um instante acreditei poder viver nessa paz solitária por longo tempo, onde ter de buscar na solidez muda das paredes brancas companhia que não as lembranças amontoadas fosse motivo suficiente para começar uma manhã mergulhada nessa paz insana. Depois de desarrumar os armários arranjei desculpa pra me sentir eu construindo aquela cena; e mudar os móveis de lugar nessa busca da casa personificada só me fez encontrar tua voz tremendo na porta de entrada. Assim já vejo que meu refúgio flutuante está condenado a inexistência enquanto tomo mais um calmante e deixo o corpo pesar na cadeira.
Não é segredo que eu não goste de quem trazes contigo, que não resta lugar na minha alma que sirva de quarto-de-bagunças, que a qualquer instante, podendo ser agora ou daqui a um mês, carregarei comigo quem eu sou mundo afora, e que apesar de ter a liberdade entre as mãos e a vontade nos olhos da cara, ainda faria o mesmo se essa casa que ergui nesses meses todos fosse inteiramente minha.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

two



Poderia descrever agora a sensação que tenho entre os olhos da cara, essa neblina que inunda meu ser nessa manhã ensolarada e transborda a existência incerta de dois corpos perdidos no mundo das ilusões flutuantes. Mas o mar encharcou meu corpo, o mar intenso e sem forma ocupa a cena dessa fotografia. Tudo agora poderia ter começado com essa fotografia dos amigos sentados na orla da praia, porque sinto como se estivesse contando os instantes da manhã que começa enquanto vou existindo...


- Deixa a música das ondas tomar lugar no firmamento, leva teu corpo no embalo da maré mas não mergulha nesse mar insensato de estar comigo, porque essa grandeza te devora, meu amigo. Escolhe o que levar de mim para sempre contigo, que esse pedaço há muito te pertence. Guarda esses intervalos de silêncio como a mais duradoura conversação existente entre nós e não te esqueças das horas subseqüentes porque compartilhar contigo meus sorrisos de abril, enquanto essa eternidade nos sucede mansa e irrevogável, só faz gerar motivo para não querer mais nada esta manhã e ser feliz de ter isto.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Hoje não.

Cansei de tanto procurar
Cansei de não achar
Cansei de tanto encontrar
Cansei de me perder

Hoje eu quero somente esquecer
Quero o corpo sem qualquer querer
Tenhos os olhos tão cansados de te ver
Na memória, no sonho e em vão

Não sei pra onde vou
Não sei
Se vou ou vou ficar
Pensei, não quero mais pensar
Cansei de esperar
Agora nem sei mais o que querer
E a noite não tarda a nascer
Descansa coração e bate em paz

[Composição: Simons & Marques / Alberto Ribeiro]

domingo, 21 de março de 2010

Foi em abril?



...quase não me lembro, mas não consigo esquecer de todo. E tu te lembras? Vinhas pela via da direita, eu estremeço à imagem nítida dessa lembrança, vacilo à menor palpitação daquele olhar em plena luz do entardecer quando eu segurava firme o livro que te chamou pelo nome. É como se fosse ontem. Sim, agora me lembro bem. Os teus cabelos eram ainda escuros, caiam ondulados por sobre os ombros e senti a onda de calor tomar meu rosto instantaneamente quando ao meu pensamento teu olhar seguiu minha direção.
A voz. Ainda me lembro da voz, veio quebrando o silêncio daquele tempo, veio sorrindo de corpo inteiro para dizer olá, quem vem por aí, menina do anel? e o perfume, é claro, o perfume que me ocupava noites à janela, sempre entrando sem pedir licença através das muitas cartas que trocávamos insaciáveis.
Não existe método maior que a saudade para ressaltar a importância que exercemos uma à outra naqueles velhos tempos, o lance das mãos tímidas, os olhares vagos, os risos incontidos e as palavras reticentes...
Ouso dizer que não é de todo mal que hoje eu quase não te veja, pois para tudo há esse tempo, esse deslumbramento que precede paixões arrebatadoras de finais de tarde ensolarados, e para tudo há também esse desfecho igualmente violento.
Ainda que não perdure além dos dias contados nos dedos, ainda que não estejas aqui presente no momento do agora, eu sei que continuas sendo, lá no fundo das minhas razões temperamentais, a melhor das noites de inverno, o melhor tempo-longe-de-mim, o melhor desencaixe e a melhor juro de amor feita na estação. Ainda que não tenhamos passado além desse platonismo arrebatador, sinto que vivemos histórias de mil anos em poucas noites de calmaria e viveríamos mais se quiséssemos ter vivido, mesmo em meio ao turbilhão de sentimentos confusos dentro dessa réplica reduzida de nossos dias compartilhados.
No final, creio ser isto o que conta. Não perderia meu tempo dizendo isso às tempestivas ondas do mar se não soubesse que, silenciosa em teu quarto, podes bem ouvir e sentir o calor das minhas petições...